Neuropatia óptica hereditária de Leber: sintomas, exames e cuidados
Conheça os sinais da perda de visão central, por que buscar avaliação urgente e como os exames e a genética ajudam a esclarecer a causa.

A neuropatia óptica hereditária de Leber, chamada LHON, compromete células que levam a informação visual da retina ao cérebro. Pode causar perda de nitidez central e de percepção de cores, geralmente sem dor. A alteração costuma surgir em um olho e depois no outro, embora possa começar nos dois.1
Perda visual nova precisa de avaliação urgente, mesmo sem dor ou com casos semelhantes na família. Não espere o segundo olho mudar nem o resultado genético. Outras causas de comprometimento do nervo óptico podem precisar de tratamento rápido, e os sintomas não permitem confirmar LHON em casa.2
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Como o nervo óptico é afetado
O nervo óptico leva os sinais da retina até o cérebro. Na LHON, as células que formam esse caminho podem perder fibras e funcionar menos. Isso prejudica a informação visual, especialmente a visão central.12
Como as mitocôndrias participam do problema
As células ganglionares ficam na retina, e suas fibras formam o nervo óptico. Elas dependem de energia para funcionar.
As mitocôndrias são estruturas que ajudam a fornecer essa energia. A forma clássica de LHON está associada a alterações no DNA existente dentro delas, chamado DNA mitocondrial.
O problema de produção de energia interfere no funcionamento das células e pode levar à perda de fibras do nervo.
A amaurose congênita de Leber é uma condição diferente, relacionada a disfunção retiniana muito precoce e a outros mecanismos. Os diagnósticos e os critérios de tratamento são diferentes. Essa distinção importa ao interpretar um laudo ou uma notícia de terapia.
Como a perda central aparece e por que investigar logo
A pessoa pode notar uma área central embaçada, dificuldade para ler ou reconhecer rostos e cores menos nítidas. A perda costuma evoluir ao longo de semanas e pode ser intensa. Ambos os sexos podem ser afetados, em diferentes idades; não é adequado excluir a hipótese apenas por sexo ou faixa etária.1
O padrão central e sem dor não é exclusivo de LHON. Inflamações, compressões, problemas nutricionais ou exposições tóxicas podem comprometer a via visual e exigir outra conduta. A neurite óptica, por exemplo, tem investigação própria. A avaliação deve começar enquanto a hipótese genética é esclarecida.2
Quais exames ajudam a localizar o problema
A consulta compara nitidez, cores, pupilas, campo visual e aspecto dos nervos ópticos. O médico considera a sequência das mudanças, medicamentos, exposições, alimentação e história familiar. A aparência do fundo do olho pode variar com a fase; uma observação isolada não encerra a investigação.23
| Avaliação | O que acrescenta | Limite |
|---|---|---|
| OCT de nervo óptico | Mostra a camada de fibras e permite analisar células ganglionares conforme o protocolo. | A estrutura muda com a fase e não identifica sozinha a causa. |
| Campo visual | Documenta onde a sensibilidade está reduzida, inclusive no centro. | O padrão precisa ser interpretado com a qualidade do teste e o exame clínico. |
| Potencial evocado visual, ou PEV | Registra a resposta cerebral a estímulos visuais, quando indicado. | Uma alteração não localiza sozinha a lesão nem confirma LHON. |
| Investigação genética | Procura uma causa molecular compatível e orienta a família. | O resultado depende dos genes, do DNA analisado e do método. |
O eletrorretinograma de campo total, ou ERG, avalia a resposta global da retina à luz. Um resultado preservado não exclui uma neuropatia óptica. Outras modalidades, como o ERG de padrão, respondem a perguntas diferentes. O guia de ERG, EOG e PEV explica essas diferenças.4
Conforme os achados, podem ser necessários ressonância e exames para causas adquiridas. Informe também sintomas neurológicos ou cardíacos já conhecidos, pois alguns casos exigem avaliações adicionais. A avaliação neuro-oftalmológica, como a realizada pelo Dr. Samir Cavero Crespo, ajuda a organizar a localização e os diagnósticos possíveis.2
Herança mitocondrial e manifestação variável na família
Na LHON clássica associada ao DNA mitocondrial, a transmissão é pela linhagem materna. Homens com essa variante não a transmitem aos filhos; mulheres podem transmiti-la a filhos e filhas. Uma mulher pode enxergar bem e ainda ter a variante familiar.
Nem toda pessoa que herda a variante desenvolve perda visual. A idade, o sexo, a alteração genética e outros fatores influenciam esse risco. O aconselhamento sobre herança ocular considera os dados da família, sem prever com precisão se ou quando alguém será afetado.2
O que penetrância incompleta e heteroplasmia significam
Penetrância incompleta significa que nem todas as pessoas com a variante apresentam a doença. A ausência de outros casos conhecidos na família não exclui LHON.
Heteroplasmia é a mistura de DNA mitocondrial com e sem a variante. A quantidade transmitida e a manifestação podem variar.
Uma porcentagem encontrada no sangue não permite prever exatamente a visão ou a gravidade do quadro em um filho.
Nem toda neuropatia óptica hereditária é transmitida pela linha materna. Há formas causadas por genes no DNA do núcleo, com outra herança. A causa confirmada orienta qual regra se aplica à família.5
Por que o gene DNAJC30 pode mudar a orientação familiar
Alterações causadoras de doença nas duas cópias do DNAJC30, um gene do núcleo, podem produzir uma forma de neuropatia óptica com herança recessiva.
Nesse caso, a interpretação não segue a regra de transmissão materna do DNA mitocondrial.
Como interpretar o teste genético
É preciso conferir se o teste examina o DNA mitocondrial e quais variantes ou genes inclui. Um painel ou exoma não deve ser presumido equivalente a uma análise mitocondrial completa. O planejamento considera a hipótese clínica e as limitações técnicas. O guia de painel, exoma e genoma ajuda a preparar essa conversa.2
Uma variante de significado incerto, ou VUS, não confirma a causa e não deve fundamentar sozinha decisões clínicas ou reprodutivas. Um resultado negativo ou inconclusivo precisa ser comparado ao alcance da análise, ao exame da via visual e às outras hipóteses.6
O Dr. Daniel Omote, na consulta de genética ocular, pode ajudar a organizar a investigação molecular e sua interpretação familiar, em conjunto com a avaliação neuro-oftalmológica. Leve o laudo completo e os exames anteriores, e não apenas o nome de uma variante.

Cuidados com hábitos e apoio para usar a visão
Pessoas com variante mitocondrial causal para LHON devem receber orientação para não fumar e evitar consumo excessivo de álcool, inclusive episódios de grande ingestão. Parar de fumar pode exigir apoio profissional. Esses cuidados não garantem prevenção, pois a manifestação também depende de outros fatores.2
Revise com a equipe os medicamentos e as exposições ocupacionais, sem suspender tratamentos por conta própria. Recursos de baixa visão podem ajudar leitura e uso de telas: ampliação, contraste, áudio e adaptações no estudo e no trabalho devem ser escolhidos conforme a tarefa e a preferência da pessoa.
O apoio visual não precisa esperar a conclusão genética ou uma decisão terapêutica. Reabilitação e apoio emocional ajudam a lidar com as dificuldades e a preservar a participação no cotidiano.27
O que discutir sobre tratamento
As opções precisam ser avaliadas prontamente por especialista, considerando causa e fase do quadro. Na União Europeia, a idebenona, conhecida como Raxone, tem autorização para comprometimento visual por LHON em adultos e adolescentes a partir de 12 anos. Essa autorização europeia não estabelece, por si só, aprovação, disponibilidade ou acesso no Brasil.8
No estudo RHODOS, a comparação principal após 24 semanas não confirmou uma vantagem clara do tratamento. A diferença não foi estatisticamente significativa. Isso precisa ser considerado ao discutir o benefício esperado.9
O estudo posterior LEROS observou benefício visual, mas comparou pessoas tratadas com registros de pessoas acompanhadas no passado, sem sorteio entre grupos. Essa diferença no modo de comparar limita a certeza da conclusão. As respostas variaram conforme a fase e a alteração mitocondrial, sem garantir recuperação individual.10
Como os métodos de RHODOS e LEROS são diferentes
O RHODOS foi randomizado: houve sorteio dos grupos. O objetivo principal foi avaliado após 24 semanas e não atingiu significância estatística.
O LEROS foi aberto e não randomizado. Participantes e equipe sabiam do tratamento, e a comparação foi feita com um grupo histórico. Isso exige cautela ao atribuir toda diferença observada ao medicamento.
A equipe precisa avaliar indicação, efeitos adversos, interações e documentação regulatória aplicável. Não use idebenona ou suplementos como tentativa de tratamento sem orientação. A EMA descreve efeitos como diarreia, tosse e dor nas costas. A proposta deve incluir acompanhamento, não apenas prescrição.8
Ao receber uma notícia sobre intervenção, esclareça qual causa foi estudada, resultados, riscos e autorização aplicável. O guia de terapia gênica aprovada e em pesquisa explica como fazer essa leitura. A biblioteca de genética ocular reúne os demais guias para a avaliação familiar e visual.
Fontes e referências
GeneReviews / University of Washington e NIH / MedlinePlus Genetics: manifestações, investigação e herança mitocondrial. Stenton e colaboradores: forma recessiva ligada ao DNAJC30. ISCEV: alcance de PEV e ERG. ACMG e AMP: interpretação de variantes. National Eye Institute: baixa visão. EMA: indicação europeia e segurança da idebenona. RHODOS e LEROS: evidência primária do tratamento e seus limites.
- Yu-Wai-Man P, Chinnery PF. Leber hereditary optic neuropathy. Updated March 11, 2021. In: GeneReviews. Seattle: University of Washington; 1993–2026.
- National Library of Medicine. MedlinePlus Genetics: Leber hereditary optic neuropathy.
- Stenton SL, Sheremet NL, Catarino CB, et al. Impaired complex I repair causes recessive Leber's hereditary optic neuropathy. J Clin Invest. 2021;131(6):e138267.
- Šuštar Habjan M, Bach M, van Genderen MM, et al. ISCEV standard for clinical visual evoked potentials (2025 update). Doc Ophthalmol. 2025;151(2):97–112.
- Robson AG, Frishman LJ, Grigg J, et al. ISCEV Standard for full-field clinical electroretinography (2022 update). Doc Ophthalmol. 2022;144(3):165–177.
- Richards S, Aziz N, Bale S, et al. Standards and guidelines for the interpretation of sequence variants: a joint consensus recommendation of the American College of Medical Genetics and Genomics and the Association for Molecular Pathology. Genet Med. 2015;17(5):405–424.
- National Eye Institute. Low vision. Atualizado em 25 de novembro de 2025.
- European Medicines Agency. Raxone (idebenone): European public assessment report. Product information updated August 20, 2025.
- Klopstock T, Yu-Wai-Man P, Dimitriadis K, et al. A randomized placebo-controlled trial of idebenone in Leber's hereditary optic neuropathy. Brain. 2011;134(9):2677–2686.
- Yu-Wai-Man P, Carelli V, Newman NJ, et al. Therapeutic benefit of idebenone in patients with Leber hereditary optic neuropathy: the LEROS nonrandomized controlled trial. Cell Rep Med. 2024;5(3):101437.
Organize a avaliação da via visual e da causa genética
Dúvidas comuns sobre este tema
LHON e amaurose congênita de Leber são a mesma doença?
Não. A LHON compromete células ganglionares e o nervo óptico, enquanto a amaurose congênita de Leber envolve disfunção retiniana muito precoce, com outras causas. O nome compartilhado não permite transferir a indicação de um tratamento entre os diagnósticos.
Se a visão piorou sem dor, posso esperar o teste genético?
Não. Perda visual nova exige avaliação urgente mesmo sem dor, porque causas adquiridas também podem comprometer o nervo óptico e precisar de tratamento rápido. A investigação clínica e os cuidados podem começar enquanto a genética é esclarecida.
Mulheres e pessoas fora da juventude podem ter LHON?
Sim. O quadro é mais frequente em homens e costuma surgir em pessoas jovens, mas pode afetar ambos os sexos e aparecer em outras idades. Sexo e idade ajudam na interpretação do risco, sem excluir sozinhos a hipótese.
Encontrar a variante familiar prevê se vou perder a visão?
Não com precisão. Na forma mitocondrial, muitas pessoas com a variante não desenvolvem perda visual. A causa, a história familiar e outros fatores orientam o aconselhamento, mas não determinam idade de início, gravidade ou evolução individual.
Um pai com LHON transmite a variante aos filhos?
Na forma clássica associada ao DNA mitocondrial, o pai não transmite essa variante aos filhos. Essa regra não vale automaticamente para formas ligadas a genes do núcleo ou outras neuropatias hereditárias. O resultado molecular precisa definir qual padrão se aplica à família.
Um ERG de campo total normal exclui problema no nervo óptico?
Não. Esse ERG avalia a resposta global da retina. Uma neuropatia óptica pode existir com esse resultado preservado. A avaliação combina função visual, OCT, exame clínico e outros testes quando indicados; o ERG não substitui essa investigação.
Um exoma negativo exclui a forma mitocondrial?
Não por si só. É necessário verificar se houve análise de DNA mitocondrial, qual foi a cobertura e quais limitações foram descritas. O método e a hipótese clínica orientam se cabe complementar ou rever a investigação.
Parar de fumar garante que um portador não desenvolverá LHON?
Não há garantia de prevenção. Evitar tabaco e consumo excessivo de álcool integra as orientações de cuidado, mas a manifestação depende de vários fatores. Quem precisa de ajuda para parar de fumar deve conversar com a equipe; ter a condição não é motivo para atribuir culpa à pessoa ou à família.
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