Artigo

Trabeculectomia: como funciona a cirurgia filtrante clássica para glaucoma

Quando os colírios não dão conta do glaucoma, a trabeculectomia pode ser o próximo passo. Entenda como a cirurgia cria uma nova via de drenagem do humor aquoso e o que esperar da recuperação.

Aspecto da bolsa filtrante após trabeculectomia.
Uma nova saídaA trabeculectomia cria uma passagem para o humor aquoso e forma uma bolsa de filtração sob a conjuntiva.
Quando entraA cirurgia é considerada quando a pressão segue acima da meta ou o glaucoma avança apesar do tratamento.

A trabeculectomia é considerada a cirurgia filtrante 'clássica' para o glaucoma. Ela existe há décadas, continua sendo uma das opções mais eficazes para baixar a pressão intraocular e é indicada quando os colírios, mesmo bem usados, não conseguem atingir a pressão-alvo — ou quando a doença continua avançando apesar do tratamento clínico.

Exame com lâmpada de fenda no acompanhamento pós-operatório.

A ideia: criar uma nova válvula

No olho saudável, o humor aquoso é produzido pelo corpo ciliar, circula pela câmara anterior e escoa para fora através do trabeculado, uma estrutura fininha no ângulo iridocorneano. No glaucoma, esse escoamento é insuficiente, a pressão sobe e o nervo óptico sofre. A trabeculectomia cria uma nova via de saída: o cirurgião faz uma pequena aba parcial na esclera, remove um pedacinho do trabeculado logo embaixo e permite que o humor aquoso escoe para um espaço subconjuntival, formando uma pequena bolha chamada 'bolsa filtrante' ou bleb, onde é absorvido pelos tecidos ao redor.

Antimetabólitos: reduzir a cicatrização

A grande inimiga da trabeculectomia é a cicatrização exagerada: se o organismo fecha a bolsa filtrante cedo demais, a pressão volta a subir. Para reduzir esse risco, muitos cirurgiões aplicam durante a cirurgia uma pequena quantidade de mitomicina C, uma substância antifibrótica, por alguns minutos. Essa modificação aumentou significativamente as taxas de sucesso em relação à técnica original.

Pós-operatório: os primeiros meses são cruciais

Nos primeiros dias, o paciente usa colírios de antibiótico e anti-inflamatório em alta frequência. As consultas de retorno são próximas, muitas vezes semanais no início, porque o médico precisa observar a bolsa filtrante e intervir rapidamente se houver sinais de fechamento ou de hipotonia (pressão baixa demais).

Nesse período, procedimentos pequenos feitos no consultório podem fazer grande diferença: liberação de pontos com laser (suture lysis), massagem ocular controlada e, em alguns casos, injeções de antifibrótico ao redor da bolsa. Esforço físico intenso, baixar a cabeça bruscamente e coçar o olho ficam restritos por algumas semanas.

O que esperar do resultado

O objetivo da trabeculectomia não é melhorar a visão — é proteger a visão que o paciente ainda tem, impedindo que o glaucoma continue avançando. A visão já perdida pelo dano do nervo óptico não retorna. Em troca, muitos pacientes conseguem reduzir significativamente ou até suspender totalmente o uso de colírios, com pressão estável por anos.

Riscos discutidos antes da cirurgia

Como em toda cirurgia, há riscos: hipotonia, vazamento da bolsa filtrante, achatamento da câmara anterior, catarata acelerada, infecção da bolsa (blebite) e, em casos raros, endoftalmite. Esses riscos são discutidos caso a caso antes da decisão cirúrgica e comparados com o risco de deixar o glaucoma progredir sem um tratamento mais eficaz.

Um estudo importante (TAGS) mostrou que, em glaucoma avançado, começar com trabeculectomia em vez de apenas colírios resultou em pressão ocular mais baixa ao longo do tempo, com qualidade de vida semelhante. Essa evidência ajudou a posicionar a cirurgia como uma opção mais precoce em certos perfis de paciente, em vez de 'último recurso'.

Perguntas frequentes

Dúvidas comuns sobre este tema

Quem é candidato à trabeculectomia?

Pacientes com glaucoma em que a pressão-alvo não é atingida com colírios (ou que têm intolerância), pacientes com progressão do dano apesar do tratamento clínico e alguns casos de glaucoma avançado como primeira escolha, de acordo com estudos recentes.

A cirurgia dá resultado imediato?

Geralmente sim: a pressão costuma baixar já nos primeiros dias. O desafio é manter esse controle ao longo dos meses, evitando cicatrização excessiva da bolsa filtrante. Por isso o acompanhamento inicial é tão próximo.

Depois da cirurgia paro de usar colírios?

Em muitos casos sim, parcial ou totalmente. Em outros, pode ser necessário manter algum colírio em pressão mais baixa do que antes. A decisão é reavaliada em cada retorno.

Existe alternativa à trabeculectomia?

Sim. Implante de tubo de drenagem (Ahmed, Baerveldt), cirurgias minimamente invasivas (MIGS), ciclofotocoagulação e, em situações específicas, cirurgia de catarata associada. A escolha depende do tipo de glaucoma, cirurgias anteriores, estado da córnea e da conjuntiva e pressão-alvo.

Continue sua leitura

Escolha para onde seguir

Artigos, exames e tratamentos relacionados ao que você acabou de ler.

Artigo relacionadoGlaucoma — doençaPágina completa sobre glaucoma.Continuar lendo Simulação da visão de um paciente com glaucoma avançado.Doenças dos OlhosGlaucoma — o ladrão silenciosoGlaucoma raramente dá sintomas nas fases iniciais — quando a pessoa percebe perda visual, boa parte do nervo óptico já foi comprometida. Entenda o que é, quem tem mais risco e como é feito o tratamento moderno.Continuar lendo Olho em pós-operatório de trabeculectomia com bolsa filtrante visível.Cirurgia e procedimentoTrabeculectomiaCirurgia filtrante para glaucoma.Continuar lendo Ilustração de implante de tubo de drenagem para glaucoma.Cirurgia e procedimentoImplante de tuboPara glaucoma refratário.Continuar lendo Paciente durante sessão de trabeculoplastia seletiva a laser.Cirurgia e procedimentoSLT — Laser para glaucomaPrimeira linha segundo o estudo LiGHT.Continuar lendo Ilustração do olho humano — a pressão intraocular elevada é o principal fator de risco para glaucoma.Exames OftalmológicosPressão intraocular (PIO)Guia sobre a medida da pressão intraocular (PIO): valores normais, métodos (Goldmann, Tonopen, sopro, rebote), por que ela importa pro glaucoma e quando deve ser medida.Continuar lendo

Exames, especialistas e tratamentos relacionados

DoençaGlaucomaDoençaCatarataDoençaCeratoconeExameRetinografiaExameTomografia de Coerência ÓpticaExameBiometria Óptica por OCT
Contato rápido

Quer transformar esta leitura em atendimento?

Se este artigo ajudou na sua dúvida, a equipe pode orientar pelo WhatsApp qual exame, especialista ou consulta costuma ser o melhor próximo passo.

Falar sobre este artigo
WhatsApp