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Ângulo estreito: quando a iridotomia a laser é necessária?

Laudo de ângulo estreito não é glaucoma nem indicação automática de laser. O que a gonioscopia e o OCT mostram, e o que o estudo ZAP mudou.

Ilustração do ângulo iridocorneano fechado, em que a íris bloqueia a drenagem do humor aquoso.
O que a ciência mostraLaudo de ângulo estreito não é glaucoma nem indicação automática de laser. O que a gonioscopia e o OCT mostram, e o que o estudo ZAP mudou.
Como decidirDurante anos, encontrar um ângulo ocluível era quase sinônimo de indicar laser preventivo nos dois olhos.

"Seu ângulo é estreito." É uma frase que sai rápido no consultório e deixa a pessoa preocupada pelo resto da semana. Ela não quer dizer que você tem glaucoma, e também não quer dizer que você vai precisar de laser.

Ângulo estreito é uma descrição de anatomia, não um diagnóstico de doença. O que decide a conduta é o que mais o exame encontrou junto com esse achado.

Três cortes esquemáticos do ângulo de drenagem do olho: aberto, com a íris plana; estreito, com a íris abaulada para a frente; e fechado, com a raiz da íris encostada no trabeculado.
O ângulo é o ralo do olho. O que muda entre os três desenhos é quanto espaço a íris deixa para ele.

O que é o ângulo do olho, na prática

O olho produz um líquido transparente o tempo todo, o humor aquoso. Ele nasce atrás da íris, passa pela pupila, banha a parte da frente do olho e precisa escoar. Se produz e não escoa, a pressão sobe.

O ralo desse sistema fica num canto: a região onde a córnea encontra a raiz da íris. Esse canto é o ângulo iridocorneano, e dentro dele está a malha por onde o líquido sai, o trabeculado.

O ângulo é chamado de estreito quando a íris fica perto demais desse ralo. Ele ainda drena, mas com pouca folga. Se a íris encostar, a saída fecha e a pressão sobe.

Por que alguns olhos têm o ângulo mais estreito

É uma questão de arquitetura, e ela muda com o tempo:

  • Olho pequeno e hipermetropia: menos espaço interno, câmara anterior mais rasa e ângulo naturalmente mais apertado.
  • Idade: o cristalino continua crescendo a vida inteira. Um cristalino mais espesso empurra a íris para a frente, e o ângulo que era justo fica estreito.
  • Catarata volumosa: acentua o mesmo efeito e às vezes é o próprio motivo do estreitamento.
  • Ser mulher e ter história familiar: os dois aumentam a chance, e a ascendência asiática também.
  • Íris espessa ou corpo ciliar anteriorizado: configurações em que o problema não é a passagem pela pupila, e sim a própria estrutura ao redor.

Esse último item importa mais do que parece, e a razão aparece adiante: quando a causa não é bloqueio pupilar, abrir um furo na íris não resolve.

Ângulo estreito, ângulo fechado e glaucoma não são a mesma coisa

Os três termos aparecem no mesmo laudo e descrevem estágios diferentes de um mesmo espectro:

  • Suspeito de fechamento angular: o ângulo é ocluível na gonioscopia, mas a pressão está normal, não há aderências e o nervo óptico está preservado. É só anatomia de risco.
  • Fechamento angular primário: já existe prova de que o ângulo fechou em algum momento, seja por aderências entre íris e trabeculado, por pressão elevada ou por sinais de crise prévia. O nervo óptico ainda está bem.
  • Glaucoma primário de ângulo fechado: além do fechamento, o nervo óptico já foi danificado e o campo visual costuma mostrar perda.
  • Crise aguda de fechamento angular: o fechamento acontece de uma vez, a pressão dispara em horas e o quadro vira emergência.

A palavra glaucoma só entra quando há dano no nervo óptico. Antes disso, o que existe é risco, e risco se acompanha ou se reduz, conforme o caso. Se quiser entender o mecanismo do dano, o artigo como acontece o glaucoma explica a fisiopatologia dos dois tipos.

Como o médico enxerga o seu ângulo

A pressão do olho, medida sozinha, não diz nada sobre o ângulo. Dá para ter pressão normal com ângulo prestes a fechar. Ver o ângulo exige exame próprio.

Comparação entre gonioscopia, OCT de segmento anterior e ultrassom biomicroscópico na avaliação do ângulo de drenagem do olho.
Os três exames não competem. Cada um responde uma pergunta diferente sobre o mesmo ângulo.

Gonioscopia: o exame que decide. Depois do colírio anestésico, uma lente com espelhos encosta na córnea e revela o ângulo, que é invisível no exame comum por causa da reflexão da luz. É rápido, não corta e não entra no olho.

O que torna a gonioscopia insubstituível é ela ser dinâmica. O médico faz uma leve pressão com a lente, a manobra de indentação, e observa se o ângulo abre. Isso separa uma íris apenas encostada de uma íris colada por aderências, e essa diferença muda a conduta. Um detalhe prático: o exame é feito sem dilatar, porque dilatar a pupila fecha o ângulo artificialmente e invalida a avaliação.

OCT de segmento anterior: a foto em corte. A mesma tecnologia do OCT de mácula aplicada à frente do olho. Fotografa córnea, câmara anterior e ângulo em corte, sem encostar no olho, e gera medidas numéricas comparáveis ao longo do tempo. É excelente para documentar e acompanhar, e ajuda muito quando a gonioscopia é difícil.

Ele complementa, não substitui. O OCT não faz a manobra de indentação e não enxerga atrás da íris, então não distingue encosto de aderência do mesmo jeito.

Ultrassom biomicroscópico (UBM): o que está atrás da íris. Usa som em vez de luz, então atravessa a íris e mostra o corpo ciliar e a região posterior a ela. É o exame que identifica a configuração em platô, em que o corpo ciliar anteriorizado empurra a periferia da íris, e outras causas de fechamento que não vêm de bloqueio pupilar. Fica reservado para casos selecionados.

Junto com esses, entram os exames que medem consequência: pressão intraocular, OCT de nervo óptico e campo visual. São eles que respondem se já existe dano, e é essa resposta que muda o estágio.

O que o estudo ZAP mudou na decisão

Durante anos, encontrar um ângulo ocluível era quase sinônimo de indicar laser preventivo nos dois olhos. Um ensaio clínico chinês, o ZAP, testou exatamente essa conduta.

O desenho foi elegante: em cada participante, um olho recebeu iridotomia e o outro ficou como controle, e todos foram seguidos por seis anos. Foram 889 pessoas com ângulo ocluível bilateral, sem glaucoma.1

O resultado tem duas leituras, e as duas são verdadeiras. O laser funcionou: a incidência de eventos de fechamento caiu de 7,97 para 4,19 por mil olhos-ano, uma redução de cerca de metade do risco. E o risco absoluto era baixo nos dois grupos: em seis anos, 36 eventos nos olhos não tratados contra 19 nos tratados.

A conclusão prática não é "não faça", nem "faça em todo mundo". É que, no suspeito de fechamento angular sem nenhum outro sinal, a decisão passa a ser individual, e o peso dos fatores pessoais cresce.

  • Quão estreito é o ângulo e quanto ele abre na indentação.
  • Idade, história familiar e ascendência.
  • Acesso a atendimento de urgência. Quem mora longe de um serviço oftalmológico paga mais caro por uma crise.
  • Necessidade futura de dilatar a pupila com frequência, por acompanhamento de retina, por exemplo.
  • Uso de medicações que podem precipitar fechamento, e o quanto isso é evitável.
  • A sua tolerância ao risco. Algumas pessoas dormem melhor com o problema resolvido, e isso é um dado legítimo.

Quando a iridotomia costuma ser indicada

Mapa de decisão em quatro estágios do fechamento angular, do ângulo estreito isolado até a crise aguda, com a conduta correspondente a cada um.
O mesmo achado no exame leva a condutas diferentes conforme o que mais foi encontrado.

Quanto mais o olho já provou que fecha, mais forte fica a indicação:

  • Depois de uma crise aguda, no olho afetado e no outro. O olho contralateral tem risco alto de fazer a mesma crise, e tratá-lo é prática consolidada.
  • Fechamento angular primário, quando há aderências, pressão elevada ou marcas de fechamento prévio.
  • Glaucoma primário de ângulo fechado, sempre associado ao restante do tratamento.
  • Bloqueio pupilar secundário, por uveíte, cristalino luxado ou implantes intraoculares mal posicionados.
  • Antes de procedimentos que exigem dilatação repetida em olhos de ângulo muito justo, quando o risco de precipitar uma crise pesa mais.

E costuma ser adiada em olho com inflamação ativa, córnea muito opaca ou câmara anterior rasa demais para o laser ser seguro naquele momento. Nesses casos o quadro é controlado clinicamente primeiro. Os detalhes do preparo, do dia do laser e da avaliação estão na página da iridotomia periférica a laser.

Há ainda uma alternativa que ganhou força: em olhos com glaucoma de ângulo fechado e pressão alta, retirar o cristalino pode abrir o ângulo melhor do que o furo na íris, porque remove o que estava empurrando a íris para a frente. O ensaio EAGLE mostrou vantagem da extração precoce do cristalino nesse cenário específico, e a cirurgia de catarata passou a ser considerada mais cedo em casos selecionados.2

Crise aguda: por que é emergência

Na crise, a íris tampa a drenagem por completo e a pressão sobe em horas para valores que o nervo óptico não tolera. O quadro é inconfundível quando se sabe o que procurar:

  • Dor ocular forte, muitas vezes com dor de cabeça do mesmo lado.
  • Náusea e vômito, que frequentemente levam o paciente ao pronto-socorro geral em vez do oftalmológico.
  • Halos coloridos ao redor das luzes e visão embaçada de instalação rápida.
  • Olho vermelho, pupila média e fixa, e o olho fica endurecido ao toque.

Toda perda visual súbita com dor merece avaliação no mesmo dia. O tratamento começa com medicação para baixar a pressão e clarear a córnea, e a iridotomia entra logo em seguida, como tratamento definitivo do bloqueio. O artigo sobre perda de visão rápida reúne as outras causas que entram no mesmo diagnóstico diferencial.

O que a iridotomia não resolve

Vale ter claro o alcance do procedimento, porque expectativa desalinhada gera frustração:

  • Não recupera nervo óptico já danificado. Dano de glaucoma é permanente, e o objetivo passa a ser preservar o que restou.
  • Não baixa a pressão em quem tem ângulo aberto. Nesse caso o tratamento é outro, com colírios, SLT ou cirurgia.
  • Não impede o cristalino de continuar crescendo e empurrando a íris com o passar dos anos.
  • Não resolve sozinha a configuração em platô, em que o mecanismo principal não é o bloqueio pupilar.
  • Não substitui o acompanhamento. Mesmo com o furo pérvio, o ângulo continua sendo reavaliado periodicamente.

Em muitos casos de fechamento angular já estabelecido, a iridotomia é o primeiro passo, não o último. Colírios, trabeculectomia ou implante de tubo de drenagem podem entrar depois, conforme a pressão e o nervo respondam.

Detalhes técnicos

O relatório de avaliação tecnológica da Academia Americana de Oftalmologia revisou 36 estudos sobre iridotomia periférica a laser no fechamento angular primário. A largura do ângulo aumentou após o laser em todos os estágios da doença, medida por gonioscopia, ultrassom biomicroscópico e OCT de segmento anterior. Ainda assim, fechamento angular persistente após o laser foi relatado em 2% a 57% dos olhos, e os fatores associados a essa persistência foram justamente os parâmetros de mecanismo não pupilar: íris espessa, corpo ciliar anteriorizado e maior abaulamento do cristalino.3

O mesmo relatório quantificou a necessidade de tratamento adicional após a iridotomia por estágio: 0% a 8% nos suspeitos de fechamento angular, 42% a 67% no fechamento angular primário, 21% a 47% após crise aguda e 83% a 100% no glaucoma de ângulo fechado. A progressão para glaucoma foi incomum, entre 0% e 0,3% ao ano nos suspeitos e entre 0% e 4% ao ano no fechamento angular primário.3

No ensaio ZAP, com 889 participantes randomizados por olho e 72 meses de seguimento, a razão de risco para o desfecho primário foi de 0,53 (IC95% 0,30 a 0,92; p = 0,024), com 19 eventos nos olhos tratados e 36 nos controles.1

No ensaio EAGLE, a extração do cristalino transparente mostrou-se superior à iridotomia isolada em olhos com glaucoma de ângulo fechado primário ou fechamento angular com pressão acima de 30 mmHg, considerando qualidade de vida, pressão e custo-efetividade.2

Perguntas frequentes

Dúvidas comuns sobre este tema

Ângulo estreito é glaucoma?

Não. Ângulo estreito descreve a anatomia do olho. Glaucoma exige dano ao nervo óptico. Muitas pessoas têm ângulo estreito a vida inteira sem desenvolver glaucoma, e por isso o acompanhamento periódico é parte da conduta.

Se meu ângulo é estreito e eu não tenho sintoma, preciso fazer o laser?

Nem sempre. O estudo ZAP mostrou que a iridotomia reduziu pela metade os eventos de fechamento em seis anos, mas o risco absoluto foi baixo nos dois grupos. A decisão considera o quanto o ângulo é estreito, idade, história familiar, acesso a atendimento de urgência e necessidade futura de dilatar a pupila.

Por que a gonioscopia não pode ser substituída pelo OCT?

Porque a gonioscopia é dinâmica. O médico faz pressão com a lente e observa se o ângulo abre, o que separa uma íris apenas encostada de uma íris colada por aderências. O OCT de segmento anterior documenta e mede muito bem, mas não faz essa manobra nem enxerga atrás da íris.

Preciso tratar os dois olhos?

Com frequência sim, porque a anatomia costuma ser parecida nos dois lados. Depois de uma crise aguda em um olho, tratar o outro preventivamente é prática consolidada, já que o risco de crise no olho contralateral é alto.

A iridotomia dispensa os colírios de glaucoma?

Depende do estágio. Quando o único problema era o bloqueio pupilar, ela pode bastar. Quando já existe glaucoma estabelecido, a maioria dos pacientes continua precisando de colírio, laser no trabeculado ou cirurgia, porque a iridotomia trata o mecanismo, não o dano já instalado.

O que é configuração em platô?

É uma anatomia em que o corpo ciliar fica anteriorizado e empurra a periferia da íris contra o ângulo, sem que o bloqueio pupilar seja a causa principal. Como o mecanismo é outro, abrir um furo na íris pode não resolver, e o diagnóstico costuma exigir ultrassom biomicroscópico.

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