Avaliação estruturada do paciente alto míope
O seguimento moderno do alto míope combina exames funcionais e estruturais. O conjunto ideal para monitorar risco e detectar complicações precocemente:
Medida da acuidade visual e refração — acompanhar estabilidade do grau ao longo do tempo. Quedas súbitas exigem investigação imediata.
Medida da pressão intraocular (tonometria) — alto míopes têm maior risco de glaucoma, e a avaliação do nervo óptico pode ser mais difícil pela própria anatomia do olho alongado. Tonometria seriada é essencial.
Biometria óptica — mede o comprimento axial sem contato, em segundos. Fundamental em crianças e jovens para acompanhar progressão, e em adultos para cálculo de LIO antes de cirurgia. Cada milímetro a mais representa ~3 D de miopia.
OCT de mácula — imagem em alta resolução das camadas da mácula. Detecta membranas neovasculares ocultas, retinosquise miópica, buraco macular, foveosquise e maculopatia miópica em estágios iniciais — antes que a visão caia de forma irreversível.
OCT de córnea / topografia e tomografia de córnea — avalia as superfícies anterior e posterior da córnea, sua espessura (paquimetria) e o mapa epitelial. Em alto míopes, rastreia ceratocone e ectasia antes de cirurgia refrativa, e ajuda a entender a qualidade óptica total do olho (curvatura + astigmatismo).
Mapeamento de retina com pupila dilatada — obrigatório em todos os alto míopes, idealmente anual. Avalia a periferia em 360° em busca de degeneração lattice, snail tracks, rupturas, descolamento e sinais de tração.
Retinografia — documenta o fundo de olho para comparação futura (estafiloma, crescente miópico, maculopatia).
Complicações de retina mais frequentes
Maculopatia miópica
Conjunto de alterações degenerativas da região macular em olhos muito alongados: estafiloma posterior (abaulamento da parede ocular), crescente miópico peripapilar, atrofia corioretiniana, rupturas da membrana de Bruch e mancha de Fuchs (cicatriz pigmentada). O OCT de mácula é o exame-chave para quantificar e acompanhar.
Neovascularização coroideana miópica (CNV miópica)
Complicação temida da maculopatia: vasos anormais crescem sob a retina, causam vazamento, sangramento e cicatriz. Manifesta-se com distorção súbita de linhas retas ou queda de visão central. Tratamento com injeções intravítreas de anti-VEGF pode preservar a visão quando iniciado cedo.
Retinosquise e foveosquise miópicas
O alongamento posterior faz a retina se dividir em camadas (esquise). Quando acomete a fóvea (foveosquise), causa perda visual lenta e progressiva. Pode evoluir para descolamento foveal e, em casos selecionados, vitrectomia é indicada.
Degeneração em treliça (lattice)
Áreas ovaladas de afinamento da retina periférica, tipicamente com pigmentação e vasos esbranquiçados. Presente em até 10% da população geral, mas mais frequente e mais perigosa em alto míopes. Principal fator local associado a rupturas e descolamento. Lesões estáveis são apenas acompanhadas; sinais de progressão ou tração pedem laser retinopexia profilática.
Snail tracks (rastros de caracol)
Finas áreas esbranquiçadas em 'trilha', sem pigmentação marcada, no equador ou periferia. Variante da lattice, com risco semelhante de rupturas e descolamento.
Rupturas em ferradura (operculadas ou não operculadas)
Rupturas em forma de 'U' na periferia da retina. Quando o vítreo se solta e traciona, pode formar uma ruptura com retalho aderido à base vítrea (não operculada) — alto risco de descolamento e geralmente tratada com laser profilático. Se o fragmento se solta inteiramente (ruptura operculada), a tração cede e o risco é menor — mas a lesão é acompanhada.
Descolamento do vítreo posterior (PVD)
Separação natural do gel vítreo da retina, comum com o envelhecimento e acelerada em alto míopes (em idade mais jovem). Manifesta-se com moscas volantes súbitas e flashes. Na maioria dos casos, é benigno, mas 10-15% dos PVDs agudos em olhos miópicos se associam a ruptura de retina — por isso mapeamento nas 24-72 horas iniciais é essencial.
Descolamento de retina regmatogênico
Quando uma ruptura permite que o líquido passe para trás da retina, ela se descola da parede do olho. Emergência cirúrgica: sombra ou cortina progressiva no campo visual, queda de visão, possivelmente com dor ou sem dor. O tratamento é cirúrgico — vitrectomia posterior, retinopexia pneumática ou introflexão escleral.