Como este exame ajuda na decisão clínica
Já ouviu falar em 'coloração da superfície do olho'? É exatamente isso. A gente aplica dois corantes em sequência, e eles revelam áreas lesadas que seriam invisíveis sem eles. É o exame que fecha o diagnóstico de olho seco moderado a severo e de várias outras doenças da superfície ocular.
Pra quem é esse exame
O médico pede as colorações vitais quando quer ver o dano da superfície ocular com os próprios olhos, não só inferir pelos sintomas. Situações típicas:
- Olho seco moderado a severo com ardência, sensação de areia ou visão embaçada que melhora depois de piscar.
- Ceratite (inflamação da córnea), úlcera corneana ou suspeita de infecção herpética.
- Disfunção das glândulas de Meibômio (MGD, Meibomian Gland Dysfunction) e blefarite posterior crônica.
- Doença do enxerto contra hospedeiro ocular (GVHD, Graft-versus-Host Disease) em pacientes transplantados.
- Síndrome de Sjögren (Sjögren's syndrome) e outras doenças autoimunes com envolvimento ocular.
- Pré-operatório de cirurgia refrativa (LASIK, PRK) e implante de lente fácica: dano subclínico pode comprometer o resultado.
- Ceratoconjuntivite vernal (VKC, Vernal Keratoconjunctivitis) e atópica (AKC, Atopic Keratoconjunctivitis) em crianças: a coloração estadía a doença e guia o tratamento.1
Os dois corantes, um exame
Pense na superfície do olho como o assoalho de uma casa. A fluoresceína encontra os buracos no piso da córnea. A lissamina encontra as telhas podres da conjuntiva. São problemas diferentes, precisam de ferramentas diferentes.
Fluoresceína sódica 2%: corante laranja-amarelado que, sob luz azul-cobalto com filtro amarelo de barreira, aparece verde-brilhante. Ela penetra só onde as junções entre as células da córnea estão rompidas, tornando visíveis os defeitos epiteliais (arranhões, úlceras, ceratite ponteada). Também se mistura ao filme lacrimal e permite medir o tempo de ruptura do filme lacrimal (BUT, Break-Up Time): menos de 5 segundos é instabilidade significativa.
Verde-lissamina 1% (lissamine green B): corante azul-esverdeado visto sob luz branca comum, sem filtros especiais. Age por mecanismo diferente: penetra em células com membrana danificada ou deficiente em mucinas protetoras. Identifica células conjuntivais desvitalizadas mas ainda presentes, que a fluoresceína não vê. Por isso a lissamina é o corante de escolha para a conjuntiva no diagnóstico de olho seco, sendo mais sensível e muito menos irritante que o rosa Bengala (rose bengal), corante histórico praticamente abandonado por sua toxicidade e ardência intensa.2
Como o exame é feito
O exame é feito à lâmpada de fenda e segue uma sequência clara:
- Aplicação da fluoresceína: uma gota ou fita impregnada de fluoresceína 2% é instilada no fórnice inferior. O paciente pisca 2 a 3 vezes pra distribuir o corante.
- Avaliação com luz azul-cobalto: o médico observa a córnea com filtro amarelo de barreira. Áreas verdes indicam defeitos epiteliais. O cronômetro mede o BUT: tempo do último piscar até o primeiro furo no filme lacrimal.
- Intervalo de 5 a 10 minutos: aguarda a fluoresceína ser absorvida antes de aplicar a lissamina, evitando interferência entre os dois corantes.
- Aplicação da lissamina: uma gota de verde-lissamina 1% no fórnice inferior. Aguardar 30 a 60 segundos para o corante se distribuir.
- Avaliação com luz branca: o médico observa a conjuntiva bulbar e, se necessário com eversão palpebral, a conjuntiva tarsal. Células azul-esverdeadas indicam desvitalização.
O exame completo leva aproximadamente 15 a 20 minutos. O resultado sai na hora, interpretado na mesma consulta.2
Preciso me preparar?
O preparo é simples. Algumas coisas interferem no resultado:
- Lágrimas artificiais: suspender pelo menos 2 horas antes. Diluem os corantes e podem mascarar a coloração real.
- Maquiagem ocular: não usar no dia (rímel, delineador, sombra). Interferem na aplicação e na leitura dos corantes.
- Lentes de contato gelatinosas: retirar pelo menos 24 horas antes. Lentes rígidas ou esclerais com antecedência maior conforme orientação da equipe.
- Colírios com preservantes: informar ao médico. Em alguns casos é necessária uma janela de suspensão.
Não é preciso estar em jejum nem interromper medicações sistêmicas.
Padrões clássicos: o que cada desenho significa
A parte mais fascinante do exame é que o desenho formado pelos pontos corados já sugere o diagnóstico antes mesmo de qualquer exame de sangue ou imagem:
- Faixa interpalpebral horizontal (na zona de exposição entre as pálpebras): padrão mais comum do olho seco evaporativo. A córnea e a conjuntiva ficam expostas durante o dia, o filme evapora mais ali. Indica frequentemente disfunção das glândulas de Meibômio.
- Arco inferior em 'sorriso' (coloração no terço inferior da córnea): levanta suspeita de lagoftalmo noturno. Durante o sono, a pálpebra não fecha por completo, a córnea de baixo fica exposta. O médico vai perguntar se o parceiro já observou o olho entreaberto dormindo.
- Ramificações dendríticas centrais (galho de árvore com botões nas pontas): padrão clássico da ceratite herpética (Herpes simplex keratitis, HSV). Esse achado muda a conduta e pede avaliação oftalmológica logo. O tratamento costuma ser com antivirais; o uso de corticoide depende do tipo de envolvimento da córnea e fica a cargo do especialista. Não se automedique com colírio de corticoide nesse quadro: sem antiviral, ele pode agravar a infecção.
- Ponteado difuso inferior associado a bordo palpebral com espuma e telangiectasias: típico de blefarite posterior por MGD. A coloração com lissamina da conjuntiva tarsal (com eversão da pálpebra) confirma o envolvimento inflamatório local.
- Coloração conjuntival límbica superior difusa, bilateral: sugere ceratoconjuntivite vernal ou atópica, especialmente com úlcera em escudo no terço superior da córnea. Em GVHD ocular e síndrome de Sjögren, a coloração conjuntival costuma ser difusa bilateralmente, incluindo a conjuntiva tarsal.3
Como a Ortolan classifica a gravidade
Para padronizar a avaliação e acompanhar a evolução ao longo do tempo, a Ortolan usa a escala de Oxford (Bron AJ et al., Cornea 2003), a ferramenta semiquantitativa de referência para graduar o dano epitelial:
- Grau 0: nenhum ponto corado. Superfície íntegra.
- Grau I: até 5 pontos. Dano mínimo.
- Grau II: 5 a 15 pontos. Dano leve.
- Grau III: 16 a 30 pontos. Dano moderado.
- Grau IV: 31 a 45 pontos. Dano marcado.
- Grau V: mais de 45 pontos confluentes. Dano grave.
Grau acima de II (Oxford >2) é considerado clinicamente significativo e influencia as decisões de tratamento. Ao somar o escore da córnea (fluoresceína) com o da conjuntiva (lissamina), o médico obtém um panorama integrado do dano da superfície ocular num único protocolo de consulta.
Para pesquisa clínica, a escala NEI (National Eye Institute, NIH) é uma alternativa que divide a córnea em 5 zonas pontuadas de 0 a 3 cada (escore total de 0 a 15), mapeando com mais detalhe a distribuição topográfica do dano. Na prática diária, a Oxford é mais rápida e tem os painéis fotográficos em formato de bolso.
Por que faz parte do exame de olho seco completo
O TFOS DEWS II (Tear Film & Ocular Surface Society Dry Eye Workshop II, 2017) estabelece o protocolo diagnóstico de referência para olho seco. As colorações vitais são parte central desse protocolo:
- Questionário OSDI (Ocular Surface Disease Index, índice de doença da superfície ocular): quantifica os sintomas subjetivos.
- BUT com fluoresceína: avalia a estabilidade do filme lacrimal. Abaixo de 5 segundos, instabilidade significativa.
- Teste de Schirmer: quantifica a produção aquosa lacrimal.
- Colorações vitais (fluoresceína + lissamina): mapeiam o dano real da superfície. Fecham o quadro clínico.
Nenhum desses exames vale isolado. A combinação é o que diferencia olho seco leve de moderado-severo e orienta o escalonamento do tratamento: lubrificantes, higiene palpebral, calor úmido, colírios anti-inflamatórios, ciclosporina, luz intensa pulsada (IPL) ou procedimentos cirúrgicos em casos selecionados.45
Limitações honestas
O exame é robusto, mas tem limitações reais:
- Variabilidade entre examinadores: a escala de Oxford tem concordância moderada entre médicos diferentes. O resultado é mais confiável quando comparado dentro do mesmo serviço, com o mesmo examinador, ao longo do acompanhamento.
- Quantidade de corante importa: volume grande de fluoresceína dilui o sinal e pode mascarar defeitos sutis. Fitas com volume controlado ajudam a padronizar.
- Timing entre aplicação e leitura: ler a fluoresceína menos de 30 segundos após a aplicação subestima o dano. Ler após 3 minutos, o piscar já limpou o corante das áreas de menor defeito.
- Ambiente: ar condicionado forte ou ventilação direta acelera a evaporação e altera o BUT artificialmente.
- Interpretação requer contexto: um ponto corado pode ser cicatriz antiga, pinguécula, corpo estranho subclínico ou córnea exposta. A coloração não substitui o exame completo à lâmpada de fenda.
Perguntas frequentes
O exame dói? Não. A fluoresceína causa leve queimação por 1 a 2 segundos, igual a qualquer colírio. A lissamina é ainda mais suave. Depois disso é completamente indolor. Sem agulha, sem contato com a córnea.
O corante mancha o olho pra sempre? Não. Tanto a fluoresceína quanto a lissamina são eliminadas pelo filme lacrimal em horas. O amarelo-esverdeado que aparece no espelho durante o exame é temporário. Lavar com soro fisiológico (SF 0,9%) ou água limpa acelera a remoção.
Quanto tempo a pálpebra fica colorida? Em geral 2 a 4 horas com o piscar normal. Em peles mais claras ou olhos com lacrimejamento reduzido, pode persistir até 6 horas. Lavar delicadamente ao redor das pálpebras com SF ou água e sabão neutro remove o corante da pele.
Posso usar maquiagem depois? Sim, assim que o corante desaparecer. Na prática, evite maquiagem nos olhos por pelo menos 2 a 3 horas após o exame.
Detalhes técnicos
Escala de Oxford (Bron AJ, Evans VE, Smith JA. Cornea 2003;22(7):640-650). Publicada originalmente para fluoresceína, é rotineiramente adaptada para lissamina na avaliação conjuntival. Os painéis fotográficos de referência com densidades crescentes de pontos (graus 0 a V) tornaram-se o padrão clínico mundial para graduação semiquantitativa do dano epitelial.
Escala NEI (Whitcher JP et al. Am J Ophthalmol. 2010;149(3):405-415). Desenvolvida para pesquisa clínica no contexto da síndrome de Sjögren, divide a córnea em 5 zonas pontuadas individualmente de 0 a 3 (escore total 0-15). O estudo de Whitcher 2010 também quantificou a variabilidade inter-examinador de ambas as escalas, com coeficientes kappa moderados, reforçando a necessidade de comparar resultados dentro do mesmo serviço.
TFOS DEWS II: Metodologia diagnóstica (Wolffsohn JS et al., Ocul Surf 2017). O relatório de metodologia do DEWS II posiciona o verde-lissamina como corante de escolha para a conjuntiva, substituindo o rosa Bengala por menor toxicidade epitelial e melhor tolerabilidade. O rosa Bengala, usado desde os anos 1930 como referência em pesquisa, tem mecanismo semelhante ao da lissamina (cora células desvitalizadas e desprovidas de mucina), mas causa ardência intensa e é praticamente abandonado na clínica atual.
Mecanismo diferencial dos dois corantes. A fluoresceína penetra onde as tight junctions (junções apertadas intercelulares) estão rompidas: o sinal é de defeito de junção (mais relevante na córnea). A lissamina penetra onde a membrana plasmática está danificada ou o glicocálice (camada de mucinas de proteção) está deficiente: o sinal é de desvitalização celular (mais relevante na conjuntiva, com alto número de células caliciformes). Essa diferença explica por que os dois corantes são complementares e não intercambiáveis.24
Fontes e referências
- American Academy of Ophthalmology. What is dry eye? Symptoms, causes and treatment. n.d.
- Amescua G, Ahmad S, Cheung AY, et al. Dry eye syndrome preferred practice pattern. Ophthalmology. 2024;131(4):P1-P49.
- Jones L, Downie LE, Korb D, et al. TFOS DEWS II management and therapy report. Ocul Surf. 2017;15(3):575-628.
- Craig JP, Nichols KK, Akpek EK, et al. TFOS DEWS II Definition and Classification Report. Ocul Surf. 2017;15(3):276-283.
- National Eye Institute. Dry eye. n.d.

