Como este exame ajuda na decisão clínica
Você mediu a pressão do olho e ela veio no limite. Mas a pressão só faz sentido quando a gente sabe a espessura da córnea. Uma córnea fina pode fazer o tonômetro subestimar a pressão. Uma córnea grossa pode fazer o contrário.
A paquimetria é essa medida. Pense na córnea como o vidro da frente do olho. Antes de interpretar a pressão, planejar LASIK ou avaliar edema, o médico precisa saber a espessura desse vidro.
Pra quem é esse exame
A paquimetria é simples, mas muda decisões importantes. Situações comuns:
- Suspeita ou diagnóstico de glaucoma: interpretar melhor a pressão intraocular e estimar risco.
- Hipertensão ocular: pressão alta sem dano aparente no nervo óptico.
- Pré-operatório de cirurgia refrativa: LASIK (laser in situ keratomileusis) e PRK (ceratectomia fotorrefrativa) removem tecido corneano, então a espessura inicial importa.
- Ceratocone ou suspeita de ectasia: córneas finas ou assimétricas merecem análise junto com topografia e tomografia.
- Distrofias endoteliais e edema de córnea: quando a córnea incha, a espessura aumenta.
- Pós-operatório: depois de transplante, cirurgia refrativa ou descompensação corneana, a medida ajuda a comparar evolução.12
Como o exame é feito
Existem duas formas principais. A versão óptica usa luz e não encosta no olho. A versão ultrassônica usa um transdutor que toca a córnea após colírio anestésico.
Na prática, a paquimetria óptica costuma ser a mais confortável:
- Você apoia queixo e testa no aparelho.
- Olha para uma luz central por alguns segundos.
- O equipamento mede a espessura em micrômetros, sem contato e sem dor.
Quando a córnea é muito irregular, opaca ou quando há dúvida na medida óptica, a paquimetria ultrassônica pode ser usada como complemento.
Preciso me preparar?
O preparo é curto, mas lente de contato pode atrapalhar.
- Lente gelatinosa: geralmente suspender por alguns dias, conforme orientação da equipe.
- Lente rígida ou escleral: pode exigir pausa maior, porque remodela a córnea por mais tempo.
- Sem dilatação: o exame não precisa de colírio para dilatar a pupila.
- Sem jejum: não há preparo sistêmico.
Se a paquimetria fizer parte de uma consulta com outros exames, a equipe orienta a ordem ideal no dia.
O que o resultado significa
O número principal é a espessura corneana central, em micrômetros. Um micrômetro é mil vezes menor que um milímetro.
- Em torno de 520 a 550 µm: faixa comum em muitos adultos, mas existe variação normal.
- Córnea mais fina: pode subestimar a pressão medida e aumentar atenção em glaucoma ou cirurgia refrativa.
- Córnea mais espessa: pode superestimar a pressão medida ou sugerir edema corneano se a espessura aumentou ao longo do tempo.
O número sozinho não fecha diagnóstico. Ele entra junto com pressão ocular, nervo óptico, campo visual, OCT e exame clínico.3
Por que importa tanto no glaucoma
O tonômetro de Goldmann, usado há décadas para medir pressão ocular, foi calibrado assumindo uma córnea de espessura média. Se a córnea foge muito disso, a leitura da pressão pode enganar.
No glaucoma, isso muda o raciocínio. Um paciente com pressão 21 mmHg e córnea fina pode ter risco maior do que outro com o mesmo número e córnea grossa. O médico não 'corrige' a pressão com uma fórmula simples; ele usa a paquimetria para estratificar risco.
O estudo OHTS ficou conhecido por mostrar que córneas centrais abaixo de 555 µm aumentam o risco de conversão de hipertensão ocular para glaucoma. Por isso, paquimetria fina pesa na decisão de acompanhar mais de perto ou tratar antes.4
Paquimetria e cirurgia refrativa
Na cirurgia refrativa, a pergunta é diferente: quanto tecido corneano existe antes do laser e quanto vai sobrar depois?
- LASIK: cria um flap e remove tecido com laser no estroma. A espessura residual precisa ficar segura.
- PRK: não cria flap, mas também remove tecido. A paquimetria ajuda no cálculo de segurança.
- Ceratocone subclínico: córnea fina ou assimétrica pode contraindicar laser, mesmo com grau tentador.
Por isso a paquimetria nunca é lida sozinha no pré-refrativa. Ela conversa com topografia, tomografia, mapa epitelial, refração e histórico familiar.5
Limitações honestas
A paquimetria é objetiva, mas a interpretação precisa de contexto.
- Técnicas diferentes podem dar números diferentes: óptica, ultrassônica, Pentacam e OCT não são perfeitamente intercambiáveis.
- Olho seco e superfície irregular: podem piorar a qualidade da captura óptica.
- Córnea com edema: a espessura aumenta, mas isso não significa córnea saudável. Pode indicar sofrimento endotelial.
- Lente de contato recente: pode deformar a córnea e alterar a medida.
- Não existe corte mágico universal: a decisão depende do conjunto do caso, não de um único número.
Perguntas frequentes
O exame dói? Na versão óptica, não. Não encosta no olho. Na versão ultrassônica, usa colírio anestésico antes do toque rápido do transdutor.
Preciso dilatar? Não. A paquimetria mede a córnea e não depende da pupila dilatada.
Qual é a espessura normal da córnea? Muitos adultos ficam por volta de 520 a 550 µm no centro, mas há variação individual. O mais importante é o contexto: glaucoma, cirurgia refrativa, edema ou ceratocone.
Paquimetria fina significa glaucoma? Não. Significa que a pressão medida precisa ser interpretada com cuidado e que o risco pode ser maior em certos contextos.
Preciso repetir todo ano? Em adultos saudáveis, a espessura costuma ser estável. Repetimos quando há glaucoma em investigação, cirurgia, edema, doença corneana ou dúvida na medida anterior.
Detalhes técnicos
A paquimetria óptica usa OCT ou sistemas de tomografia para medir a distância entre a superfície anterior e posterior da córnea. A ultrassônica mede o tempo de retorno de ondas sonoras após contato com a córnea anestesiada.
No glaucoma, a espessura corneana central entra como variável de risco. O OHTS (Ocular Hypertension Treatment Study) popularizou o corte de 555 µm como marcador de maior risco em hipertensão ocular, mas a decisão clínica moderna não aplica esse número isoladamente.
Na córnea, paquimetria aumentada pode sugerir edema por disfunção endotelial, como na distrofia de Fuchs ou em descompensação pós-cirúrgica. Nesses casos, a microscopia especular e o OCT de córnea completam a avaliação.67
Fontes e referências
American Academy of Ophthalmology (AAO)
AAO Preferred Practice Patterns — Primary Open-Angle Glaucoma
AAO Preferred Practice Patterns — Refractive Management
AAO EyeWiki — Primary Open-Angle Glaucoma
AAO EyeWiki — Fuchs Endothelial Dystrophy
Cochrane Eyes and Vision
- Gedde SJ, Vinod K, Wright MM, et al. Primary open-angle glaucoma preferred practice pattern. Ophthalmology. 2021;128(1):P71-P150.
- American Academy of Ophthalmology. Refractive errors and refractive surgery preferred practice pattern. 2022.
- American Academy of Ophthalmology. Eye pressure: what is intraocular pressure? n.d.
- AAO EyeWiki. Primary open-angle glaucoma. n.d.
- Shortt AJ, Allan BDS, Evans JR. Laser-assisted in-situ keratomileusis (LASIK) versus photorefractive keratectomy (PRK) for myopia. Cochrane Database Syst Rev. 2013;1:CD005135.
- AAO EyeWiki. Fuchs' endothelial dystrophy. n.d.
- Mian SI, Viriya ET, Ahmad S, Amescua G, Cheung AY, Choi DS, et al. Corneal edema and opacification preferred practice pattern. Ophthalmology. 2024;131(4):P247-P305.

