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Calázio: o que é, tratamento conservador e quando opera

Calázio é o nódulo crônico na pálpebra causado pela obstrução de uma glândula de meibômio. Saiba os sintomas, diferença para o terçol, tratamento com compressas mornas, corticoide intralesional e cirurgia de drenagem.

Pálpebra superior com calázio proeminente — nódulo indolor característico da doença.

Você percebeu um caroço na pálpebra que foi crescendo devagar, sem dor, sem vermelhidão forte, sem febre? Provavelmente é um calázio — o nódulo mais comum das pálpebras, causado pelo entupimento de uma glândula de meibômio. Ele não é perigoso na maioria dos casos, mas costuma assustar quem não sabe o que é, e pode sim precisar de tratamento quando não some sozinho.

Neste artigo, o Dr. Gustavo de Paula, especialista em Oculoplástica e Órbita pela USP, explica o que é o calázio, como diferenciar do terçol, quais são as opções de tratamento (de compressas mornas até a drenagem cirúrgica) e quando cada uma é indicada.

O que é o calázio e por que ele aparece

As pálpebras têm dezenas de glândulas de meibômio, fileiras de pequenas glândulas sebáceas que ficam no interior da placa tarsal e produzem a camada oleosa da lágrima. Essa camada é fundamental: ela evita que a película lacrimal evapore rápido demais e mantém o olho lubrificado.

Quando o ducto de saída de uma dessas glândulas fica obstruído, a secreção lipídica se acumula. O corpo tenta resolver o problema e inicia uma reação inflamatória crônica ao redor do material retido, formando um granuloma lipídico — o calázio. Diferente de uma infecção bacteriana, não há pus: é inflamação estéril, por isso o nódulo é indolor na maior parte do tempo.

Segundo a AAO EyeWiki, o calázio pode aparecer em qualquer idade, inclusive em bebês e crianças pequenas. Pessoas com blefarite, rosácea ocular, disfunção das glândulas de meibômio (DGM) ou histórico prévio de calázio têm risco aumentado de recorrência.

Sintomas: como identificar um calázio

O calázio tem uma apresentação bem característica. Os sinais mais comuns são:

  • Nódulo firme na pálpebra, superior ou inferior, que cresce ao longo de dias a semanas
  • Indolor na maior parte do tempo; se doer muito, pode ter infeccionado (hordeólum interno)
  • Pálpebra com leve inchaço na região do nódulo, às vezes com vermelhidão discreta
  • Sensação de peso ou pressão na pálpebra, especialmente se o nódulo for grande
  • Visão levemente embaçada em calázios grandes, que podem pressionar a córnea e causar astigmatismo transitório

Ao exame, o oftalmologista palpa um nódulo na placa tarsal, a estrutura cartilaginosa da pálpebra, e ao evertê-la pode ver a reação granulomatosa pela face interna da pálpebra.

Calázio x terçol: principais diferenças

A confusão entre calázio e terçol (hordéolo) é muito comum. São condições diferentes, com causas e tratamentos distintos.

O terçol (hordéolo externo) é uma infecção bacteriana aguda, geralmente por Staphylococcus aureus, que acomete as glândulas de Zeiss ou Moll na borda palpebral. Aparece como um ponto vermelho, dolorido e com pus, próximo à raiz dos cílios, e resolve em poucos dias na maioria dos casos, com calor local e, se necessário, antibiótico tópico. Já o hordéolo interno afeta a própria glândula de meibômio e pode evoluir para calázio se não drenar.

O calázio é uma reação inflamatória crônica, não infecciosa. O nódulo está dentro da pálpebra (não na borda), é firme, geralmente indolor e não apresenta pus. Não responde a antibiótico isolado.

Tratamento conservador: compressas mornas e higiene palpebral

A primeira linha de tratamento é sempre conservadora. Compressas mornas são o pilar: o calor amolece a secreção lipídica endurecida dentro da glândula, podendo facilitar a drenagem espontânea. O protocolo recomendado pelo TelessaúdeRS/UFRGS, com base em evidências disponíveis, é de 10 a 15 minutos de calor local, 2 a 4 vezes ao dia.

A técnica correta importa. O ideal é umedecer uma flanela ou compressa limpa em água aquecida (tolerável ao toque, não quente demais), posicionar sobre a pálpebra fechada e manter o contato por pelo menos 10 minutos. Logo após, massagear suavemente a pálpebra com o dedo limpo em direção à borda, para estimular a saída da secreção. Repetir isso com disciplina por 2 a 4 semanas.

Junto com as compressas, a higiene palpebral diária é essencial, especialmente em pacientes com blefarite ou DGM subjacente: limpar a borda das pálpebras com cotonete e shampoo de bebê diluído ou produto específico retira resíduos e bactérias que contribuem para o entupimento das glândulas. Pacientes com rosácea ou DGM frequentemente se beneficiam de doxiciclina oral em baixa dose, que melhora a qualidade da secreção das glândulas de meibômio.

Calázios pequenos e recentes têm boa chance de resolução espontânea com tratamento conservador. Segundo a AAO EyeWiki, calázios não tratados podem regredir sozinhos em semanas a meses, mas a evolução é imprevisível. O tratamento precoce aumenta as chances de resolução sem procedimento.

Corticoide intralesional: quando é indicado

Quando o calázio persiste após 3 a 4 semanas de tratamento conservador, a próxima etapa é geralmente a injeção intralesional de triancinolona acetonida, um corticoide de depósito. O procedimento é feito em consultório, com anestesia local: uma pequena agulha é introduzida diretamente no nódulo e o corticoide é injetado para reduzir a reação granulomatosa.

Em uma revisão de escopo publicada em 2025 no Ophthalmic Plastic and Reconstructive Surgery (Park, Vyas, Dagi Glass; PMID 39656051), a injeção de corticoide foi o tratamento mais estudado em calázio, com 25 das 39 publicações analisadas. Um estudo randomizado prospectivo (Nabie et al., 2019, PMID 31528769; n=51) comparou a injeção de triancinolona com a incisão e curetagem em calázios crônicos: a resolução completa foi de 61,5% no grupo corticoide e 84% no grupo cirúrgico (diferença não atingiu significância estatística, P=0,072). O tempo médio até a resolução, porém, foi significativamente maior com o corticoide: 8,8 versus 5,1 dias (P=0,03). A taxa de recorrência foi 34,6% com corticoide contra 8% com cirurgia (P=0,04).

Na prática clínica: a injeção é uma opção válida para calázios de tamanho médio em quem quer evitar o procedimento cirúrgico, entendendo que a taxa de resolução é menor e a recorrência maior. Para calázios grandes ou recidivados, a cirurgia costuma ser a escolha mais definitiva. Contraindicações relativas da injeção incluem: lesão próxima ao ângulo interno do olho (risco de embolia vascular) e pele muito fina (risco de atrofia cutânea local).

Cirurgia de drenagem: como é e quando é indicada

A incisão e curetagem é o procedimento padrão para calázios que não responderam ao tratamento conservador e/ou à injeção de corticoide, ou para lesões grandes desde o início. É um procedimento ambulatorial, realizado sob anestesia local na pálpebra, com duração média de 15 a 20 minutos.

O cirurgião eversiona a pálpebra e faz uma pequena incisão na face interna (conjuntival) do nódulo, evitando cicatriz externa visível. O material granulomatoso é curetado (removido com uma cureta pequena) e o espaço é limpo. Normalmente não são necessários pontos: a ferida conjuntival fecha sozinha. Na maioria dos casos o paciente volta para casa no mesmo dia com pomada antibiótica e, às vezes, um curativo oclusivo por algumas horas.

No mesmo estudo de Nabie et al. citado acima, a cirurgia apresentou resolução completa em 84% dos casos com um único procedimento, taxa de recorrência de apenas 8% e tempo até resolução de cerca de 5 dias. Segundo a AAO EyeWiki, a incisão e curetagem é considerada o tratamento de escolha para calázios não resolvidos ou volumosos.

Possíveis complicações, raras, incluem: sangramento palpebral discreto (geralmente autolimitado), leve edema nos primeiros 2 a 3 dias, infecção secundária e, muito raramente, cicatriz na conjuntiva. O pós-operatório costuma ser tranquilo: restrição a maquiagem e piscinas por 1 a 2 semanas é suficiente na maioria dos casos.

Calázio em crianças

O calázio em crianças merece atenção especial, porque o tratamento conservador tem alta eficácia nas faixas etárias menores, mas o procedimento cirúrgico, quando necessário, geralmente exige sedação ou anestesia geral, o que aumenta o risco anestésico e a complexidade.

Um estudo publicado em 2024 no Journal of Craniofacial Surgery (Yang et al.; PMID 39287407), com 91 crianças e 101 lesões, mostrou que o tratamento conservador foi eficaz em 85,7% dos casos no geral, com taxas ainda maiores nos mais novos: 96,7% em crianças de até 2 anos e 86,8% entre 3 e 6 anos. Nos maiores (7 a 15 anos), a taxa caiu para 69,7%, com lesões maiores sendo o principal preditor da necessidade de cirurgia.

Na prática, para crianças pequenas com calázio recente e de tamanho moderado, vale tentar um período mais longo de compressas mornas antes de indicar procedimento. O pediatra oftalmologista também deve avaliar se o calázio está gerando pressão sobre a córnea e risco de ambliopia (visão preguiçosa): nesses casos, a intervenção não deve ser postergada.

Calázio recorrente: quando investigar mais

A maioria dos calázios é benigna e responde ao tratamento. Mas há situações que pedem atenção adicional do especialista:

  • Calázio que recidiva no mesmo local após drenagem cirúrgica (pode ser sinal de sebaceoma, carcinoma sebáceo ou outra lesão maligna disfarçada de calázio)
  • Calázio em adulto com mais de 50 anos, unilateral, com perda de cílios, ulceração ou deformidade palpebral associada: investigar neoplasia
  • Múltiplos calázios simultâneos ou em episódios muito frequentes: avaliar DGM, blefarite, rosácea e outros fatores predisponentes
  • Lesão que não responde a nenhum tratamento em tempo razoável

Nesses casos, o material removido na cirurgia é enviado para análise anatomopatológica (biópsia). É uma medida de segurança padrão em lesões atípicas.

Como prevenir novos calázios

Não há como garantir que nunca vai aparecer um calázio, mas há atitudes que reduzem o risco de recorrência, especialmente em quem já teve um episódio:

  • Higiene palpebral diária: limpar a borda das pálpebras suavemente, especialmente quem usa maquiagem ou tem blefarite
  • Remover a maquiagem completamente antes de dormir, incluindo máscara de cílios e delineador
  • Compressas mornas preventivas por 5 minutos ao acordar, para quem tem DGM ou histórico de calázio frequente
  • Tratar a blefarite de base: quem tem blefarite crônica tem risco aumentado de calázio. Colírios e tratamentos específicos podem ser necessários
  • Óculos de proteção em ambientes com muito pó ou ventilação excessiva (ar-condicionado)

Quando procurar a Ortolan

O calázio é uma das queixas mais frequentes no consultório de oculoplástica. O Dr. Gustavo de Paula, especialista em Oculoplástica, Órbita e Vias Lacrimais pela USP, avalia e trata calázios em adultos e, em conjunto com a equipe pediátrica, em crianças de todas as idades.

Se você percebeu um caroço na pálpebra há mais de 2 a 3 semanas, se ele está crescendo, se voltou no mesmo local pela segunda vez ou se é seu filho que está com a pálpebra inchada, vale uma avaliação presencial. O diagnóstico diferencial com outras lesões palpebrais e a escolha do melhor momento para intervir, ou apenas acompanhar, são decisões que dependem do exame clínico.

Importante: este artigo tem finalidade educativa e informativa. Ele não substitui a consulta com um oftalmologista, que é indispensável para diagnóstico, indicação de tratamento e acompanhamento do seu caso.

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Perguntas frequentes

Dúvidas comuns sobre este tema

Calázio some sozinho sem tratamento?

Sim, pode. Calázios pequenos e recentes frequentemente regridem espontaneamente em semanas a meses, especialmente se acompanhados de compressas mornas. Mas nem todos resolvem: lesões maiores ou com mais tempo de evolução tendem a ficar estabilizadas e precisam de intervenção. Quanto antes o tratamento começa, maior a chance de resolução sem procedimento.

Compressa quente ou compressa fria no calázio?

Quente. A compressa morna (água aquecida a uma temperatura tolerável ao toque) amolece a secreção espessada dentro da glândula de meibômio, facilitando a drenagem. Compressa fria serve para reduzir inchaço pós-operatório imediato, mas não trata o calázio em si. O protocolo padrão é 10 a 15 minutos de calor local, 2 a 4 vezes ao dia.

Calázio na criança sempre precisa de cirurgia?

Não necessariamente. Um estudo de 2024 mostrou que o tratamento conservador com compressas mornas e higiene palpebral resolve 85,7% dos calázios em crianças, com taxa ainda mais alta (96,7%) nas com até 2 anos. A cirurgia é reservada para lesões grandes, que não respondem ao tratamento conservador, ou que estejam causando pressão na córnea com risco de ambliopia. Quando necessária em criança pequena, é feita com sedação ou anestesia geral.

Quanto tempo leva para cicatrizar depois da drenagem cirúrgica?

A recuperação costuma ser rápida. O inchaço e o desconforto melhoram nos primeiros 2 a 3 dias. A pálpebra geralmente volta ao aspecto normal em 1 a 2 semanas. Como a incisão é feita na face interna da pálpebra (conjuntival), não há cicatriz externa visível na grande maioria dos casos.

Este artigo substitui uma consulta com oftalmologista?

Não. O conteúdo é informativo e educativo. O diagnóstico diferencial entre calázio e outras lesões palpebrais, a indicação do tratamento mais adequado e o acompanhamento dependem de avaliação presencial com um oftalmologista especializado.

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