Como este exame ajuda na decisão clínica
Olhos secos, ardência, sensação de areia. O que o médico precisa saber é se falta lágrima ou se a lágrima que existe evapora rápido demais. O teste de Schirmer responde exatamente essa primeira pergunta.
É um exame discreto: uma tirinha de papel na pálpebra de baixo por 5 minutos. Sem agulha, sem colírio obrigatório, sem contato com a córnea. O resultado sai em milímetros, imediato.
Pra quem é esse exame
O Schirmer entra no raciocínio clínico quando o médico suspeita que falta lágrima aquosa. Situações mais comuns:
- Olho seco com sintomas de ressecamento mas sem alterações evidentes na lâmpada de fenda. O teste coloca número no problema.
- Síndrome de Sjögren (doença autoimune que afeta glândulas lacrimais e salivares): Schirmer menor ou igual a 5 mm em 5 minutos é um dos critérios diagnósticos dos protocolos ACR/EULAR 2016.
- Avaliação pré-operatória de cirurgia refrativa (LASIK, PRK): disfunção lacrimal preexistente pode agravar o olho seco pós-operatório.
- GVHD ocular (doença do enxerto contra hospedeiro, em pacientes transplantados de medula ou células-tronco hematopoéticas): o Schirmer monitora o dano às glândulas lacrimais.
- Queimaduras químicas ou térmicas oculares e cirurgias extensas da superfície ocular: avaliar a capacidade residual de produção lacrimal.
O exame não é indicado como rotina em quem não tem sintomas, pois a especificidade nessa população é baixa.1
Como o exame é feito
Pense numa fita de papel absorvente com marcação milimétrica. Essa tira fica encostada na pálpebra inferior por exatamente 5 minutos. A parte que fica úmida de lágrima é medida logo depois.
Na prática:
- A tira é dobrada numa extremidade e encaixada no canto lateral do fórnice inferior, o espaço entre a pálpebra de baixo e o globo. A córnea não é tocada.
- As pálpebras ficam levemente fechadas durante os 5 minutos. Não apertar.
- Ao fim, a tira é retirada e medida imediatamente em milímetros a partir da dobra.
Os dois olhos podem ser feitos ao mesmo tempo, o que torna o procedimento total de 5 a 10 minutos incluindo posicionamento e leitura.2
Preciso me preparar?
Não é necessário preparo especial para o Schirmer I (sem anestesia). Mas algumas coisas interferem no resultado:
- Lentes de contato: suspender pelo menos 48 horas antes. Lentes alteram a dinâmica lacrimal.
- Colírios lubrificantes em gel, ciclosporina ou lifitegraste: suspender pelo menos 24 horas antes, pois mudam a viscosidade da lágrima.
- Anti-histamínicos sistêmicos e descongestionantes nasais: reduzem a secreção lacrimal. Suspender quando clinicamente possível, conforme orientação médica.
- Ambiente: o exame deve ser feito em sala com temperatura e umidade controladas, longe de corrente de ar ou sol direto.
O Schirmer II (com anestesia tópica instilada imediatamente antes) não exige preparo adicional além desses pontos.
O que o resultado significa
O comprimento úmido da tira em milímetros indica o volume de lágrima aquosa produzido. Os cortes adotados pelo TFOS DEWS II (grupo DEWS do Tear Film & Ocular Surface Society, 2017) são:
- Acima de 10 mm em 5 minutos: produção lacrimal normal.
- Entre 5 mm e 10 mm: deficiência aquosa leve a moderada (borderline). Resultado sozinho não é conclusivo.
- Abaixo de 5 mm em 5 minutos: deficiência aquosa grave. Nos critérios de Sjögren (ACR/EULAR 2016), esse corte em pelo menos um olho é critério positivo.
Nenhum número vale isolado. O Schirmer entra num contexto clínico que inclui sintomas, questionários (OSDI, DEQ-5), exame na lâmpada de fenda e outros testes da superfície ocular.34
Quando o Schirmer vem junto com outros exames
O TFOS DEWS II dividiu o olho seco em dois tipos principais: o de falta de lágrima (aqueous-deficient dry eye disease, ADDE) e o de lágrima que evapora rápido demais (evaporative dry eye, EDE), geralmente por disfunção das glândulas de Meibômio. Os dois podem coexistir.
O Schirmer cobre o primeiro componente. O protocolo completo costuma incluir:
- Tempo de ruptura do filme lacrimal (BUT, Break-Up Time): mede a estabilidade do filme lacrimal com fluoresceína. Avalia o componente evaporativo.
- Colorações vitais com fluoresceína e lissamina verde: mapeiam dano epitelial na córnea e na conjuntiva.
- Meibografia e expressão das glândulas de Meibômio: avaliam o componente lipídico/evaporativo.
Um paciente pode ter Schirmer normal e olho seco evaporativo grave por disfunção meibomiana. Por isso o exame não descarta olho seco sozinho.5
Limitações honestas
O Schirmer é útil mas imperfeito. Vale conhecer os limites antes de interpretar o resultado:
- Variabilidade alta: um mesmo paciente testado duas vezes no mesmo dia pode diferir 3 a 5 mm. Um resultado borderline (5-10 mm) raramente muda a conduta sozinho.
- Efeito reflexo no Schirmer I: pacientes ansiosos ou com córnea sensível lacrimeiam mais. Diabéticos com neuropatia corneana podem ter Schirmer falsamente normal porque o reflexo trigêmeo está embotado.
- Ambiente importa: umidade baixa (abaixo de 40%) evapora a tira durante o teste e pode reduzir o valor medido.
- Técnica importa: tocar a córnea ao inserir a tira, posicioná-la no terço medial em vez do lateral, ou apertar as pálpebras altera o resultado.
- O Schirmer não avalia o componente lipídico (meibomiano) nem a estabilidade do filme lacrimal. Um resultado normal não exclui olho seco evaporativo.2
Perguntas frequentes
O teste dói? Não. A sensação é de leve desconforto pelo contato da tira com a pálpebra, parecido com um cisco. No Schirmer I sem anestesia, pode surgir lacrimejamento reflexo no início, mas isso é esperado e faz parte do que o exame mede. Com anestesia (Schirmer II), o incômodo é mínimo.
Preciso parar algum colírio antes? Sim, idealmente. Colírios lubrificantes em gel, ciclosporina e lifitegraste devem ser suspensos pelo menos 24 horas antes. Anti-histamínicos sistêmicos, se clinicamente possível, também. O médico orienta caso a caso.
Posso usar lente de contato depois? Se o exame foi feito sem anestesia, não há restrição. Se foi com anestesia, aguarde o efeito do colírio passar (geralmente 30 a 60 minutos) antes de inserir a lente para evitar lesão corneana sem perceber.
Quanto tempo demora no total? O exame em si dura 5 minutos. Com posicionamento, explicação e leitura, costuma durar de 10 a 15 minutos. O resultado sai imediatamente, em milímetros, sem espera por laudo.
Detalhes técnicos
Papel Whatman n°41. A tira padrão mede 5 mm de largura e 35 mm de comprimento, com uma dobra (nick) a 5 mm da extremidade que é encaixada no fórnice. Esse papel tem absorção padronizada, o que torna os resultados comparáveis entre clínicas. Papel armazenado incorretamente (exposto à umidade) compromete a absorção.
Schirmer I vs. II vs. III. O Schirmer I (sem anestesia) mede secreção basal mais reflexa: o contato da tira com a conjuntiva aciona o nervo trigêmeo e provoca lacrimejamento reflexo. O Schirmer II (com anestesia tópica: oxibuprocaína 0,4% ou tetracaína 0,5%) suprime esse reflexo e isola a secreção basal das glândulas lacrimais principais. O Schirmer II tem especificidade ligeiramente superior para deficiência aquosa pura, mas é menos usado na clínica diária. O Schirmer III (com estimulação nasal por amônia) avalia a capacidade máxima de secreção reflexa; é raro fora de contextos de pesquisa ou avaliação de paralisia facial.
Critérios ACR/EULAR 2016 para Sjögren. Schirmer I sem anestesia com resultado menor ou igual a 5 mm em 5 minutos em pelo menos um olho conta como critério positivo com peso 1. Os outros critérios incluem fluxo salivar reduzido e anticorpos Anti-SSA/Ro (peso 3). Referência: Shiboski et al., Arthritis & Rheumatology, 2017.
Reprodutibilidade. O coeficiente de variação entre medições do mesmo paciente no mesmo dia é alto. O TFOS DEWS II 2017 recomenda interpretar o Schirmer sempre em conjunto com outros parâmetros clínicos, nunca como exame isolado decisivo.
Hora do dia e sazonalidade. A secreção lacrimal tende a ser menor ao acordar e maior ao longo do dia. Ambientes com baixa umidade (inverno seco em SP) reduzem o valor medido por evaporação. Para consistência em acompanhamento longitudinal, idealmente repetir no mesmo horário e no mesmo ambiente.23
Fontes e referências
American Academy of Ophthalmology (AAO)
NEI (National Eye Institute)
TFOS DEWS II (Tear Film & Ocular Surface Society Dry Eye Workshop II, 2017)
Cochrane Eyes and Vision
- American Academy of Ophthalmology. What is dry eye? Symptoms, causes and treatment. n.d.
- Amescua G, Ahmad S, Cheung AY, et al. Dry eye syndrome preferred practice pattern. Ophthalmology. 2024;131(4):P1-P49.
- Jones L, Downie LE, Korb D, et al. TFOS DEWS II management and therapy report. Ocul Surf. 2017;15(3):575-628.
- Craig JP, Nichols KK, Akpek EK, et al. TFOS DEWS II Definition and Classification Report. Ocul Surf. 2017;15(3):276-283.
- National Eye Institute. Dry eye. n.d.
- Cleveland Clinic. Dry eyes: types, symptoms, causes and treatment. n.d.

