Como este exame ajuda na decisão clínica
Você pisca e a lágrima se espalha feito verniz sobre o olho. Esse verniz dura alguns segundos, depois começa a furar. O BUT mede exatamente esse intervalo. Um olho saudável sustenta o filme por mais de 10 segundos. Em olho seco evaporativo, o filme fura em menos de 5.
O exame usa uma gota de fluoresceína (corante amarelo), luz azul cobalto na lâmpada de fenda e um cronômetro. Rápido, indolor e com resultado imediato.
Pra quem é esse exame
O BUT entra em cena quando o médico suspeita que a lágrima evapora rápido demais. Situações típicas:
- Olho seco com ardência, sensação de areia ou visão embaçada que melhora depois de piscar mas sem secreção ou vermelhidão evidente.
- Disfunção das glândulas de Meibômio (MGD) e blefarite posterior: as glândulas que fazem o óleo protetor da lágrima entupiram, o filme fica instável.
- Intolerância a lentes de contato sem causa aparente: película lacrimal instável é a primeira suspeita.
- Pré-operatório de cirurgia refrativa (LASIK, PRK): BUT baixo não diagnosticado é a principal causa de insatisfação com qualidade visual depois da cirurgia.
- Usuários crônicos de tela com sintomas: piscar menos reduz o tempo de espalhamento da lágrima e pode derrubar o BUT mesmo sem doença lacrimal estrutural.1
Como o exame é feito
Pense num corante que deixa a lágrima visível. Uma gota de fluoresceína, a luz azul cobalto da lâmpada de fenda e um cronômetro: é essa a receita do BUT.
Na prática:
- Uma gota de fluoresceína 2% é instilada no fórnice inferior (ou uma fitinha impregnada umedecida com soro fisiológico, que controla melhor o volume).
- O paciente pisca 2 a 3 vezes pra distribuir o corante. Depois mantém o olho aberto.
- O médico observa pela lâmpada de fenda com filtro azul cobalto e filtro amarelo de barreira. O filme lacrimal aparece verde-uniforme. Quando fura, surge uma mancha escura dentro desse verde.
- O cronômetro vai do último piscar até o primeiro furo aparecer. Esse é o BUT, em segundos. A técnica padrão faz 3 medidas e calcula a média pra reduzir variabilidade.
O exame dura menos de 5 minutos por olho. O resultado sai na hora, sem laudo.2
Preciso me preparar?
Preparo simples. Algumas coisas interferem no resultado e devem ser evitadas:
- Lágrimas artificiais: suspender pelo menos 2 horas antes. Diluem a fluoresceína e podem mascarar a ruptura real.
- Maquiagem nos olhos: não usar no dia. Rímel e sombra alteram a estabilidade do filme lacrimal.
- Lentes de contato: retirar antes do exame, idealmente 24 horas antes (lentes gelatinosas) ou mais (lentes rígidas).
- Colírios com preservantes (antiglaucomatosos, antialérgicos): informar ao médico. Alguns precisam de janela de suspensão.
O que o resultado significa
Os cortes adotados pelo TFOS DEWS II (grupo DEWS do Tear Film & Ocular Surface Society, 2017) para o BUT com fluoresceína são:
- Acima de 10 segundos: filme lacrimal estável. Normal.
- Entre 5 e 10 segundos: instabilidade leve a moderada. Borderline. Sozinho não é conclusivo.
- Abaixo de 5 segundos: instabilidade significativa. Critério diagnóstico positivo para olho seco evaporativo.
Nenhum número vale isolado. O BUT integra um contexto clínico que inclui sintomas, questionários (OSDI, DEQ-5), exame na lâmpada de fenda e outros testes da superfície ocular.34
BUT + Schirmer: o quadro completo do olho seco
O TFOS DEWS II divide o olho seco em dois tipos: lágrima de menos sendo produzida (olho seco aquoso-deficiente, ADDE) e lágrima que evapora rápido demais (olho seco evaporativo, EDE). Os dois podem coexistir.
O BUT cobre o componente evaporativo. O Schirmer cobre o aquoso. Combinados, os dois permitem classificar o quadro:
- BUT baixo + Schirmer normal: olho seco evaporativo puro. A lágrima é produzida em quantidade suficiente, mas fura rápido. Causa mais comum: disfunção das glândulas de Meibômio.
- Schirmer baixo + BUT normal: olho seco aquoso-deficiente puro. O olho produz lágrima de menos. Causas: síndrome de Sjögren, dano às glândulas lacrimais, uso de antihistamínicos.
- Ambos baixos: quadro misto. Ocorre em doenças mais avançadas ou quando as duas fisiopatologias coexistem.
Identificar o tipo correto é o que define o tratamento: lubrificantes, higiene palpebral, calor úmido, modulação de inflamação ou, em casos selecionados, luz intensa pulsada (IPL) pra disfunção meibomiana.5
BUT vs NIBUT: qual usar
O BUT clássico usa fluoresceína e é o método disponível em qualquer consultório de oftalmologia. A limitação é que a própria gota perturba o filme antes da medida, introduzindo um viés que subestima o tempo real.
O NIBUT (Non-Invasive Break-Up Time, tempo de ruptura não-invasivo) resolve isso: projeta um padrão de anéis de Plácido sobre a córnea e detecta quando as linhas ficam distorcidas (o filme furou), sem nenhum contato e sem corante. Mais reprodutível, representa melhor a condição basal.
Na prática: quando o consultório tem o topógrafo com essa função (Keratograph 5M e similares), o NIBUT é preferido. O BUT com fluoresceína continua sendo o padrão na maioria das consultas por ser simples, barato e universal. O corte do NIBUT é diferente: abaixo de 10 segundos já é considerado sugestivo de instabilidade, pois o método naturalmente registra tempos maiores.2
Limitações honestas
O BUT é útil mas tem limitações reais que vale conhecer:
- Variabilidade inter-examinador: dois médicos podem diferir 1 a 3 segundos para o mesmo olho. Por isso a média de 3 medidas é obrigatória.
- Viés de instilação: volume grande de fluoresceína prolonga artificialmente o BUT; volume insuficiente distribui mal o corante. Fitas com volume controlado ajudam a padronizar.
- Ambiente importa: ar condicionado ou ventilação direta sobre o rosto acelera a evaporação e derruba o BUT artificialmente.
- Crianças pequenas: dificuldade de cooperação (manter o olho aberto, não piscar) limita a aplicabilidade. O NIBUT ou adaptações de técnica podem ser necessários.
- O BUT não avalia o componente aquoso. Um resultado normal não exclui olho seco por falta de produção lacrimal.
Perguntas frequentes
O exame dói? Não. A gota de fluoresceína provoca leve ardência por 1 a 2 segundos, que passa rapidamente. Depois disso é completamente indolor. Nenhum contato com o olho além do colírio.
A fluoresceína mancha o olho? Não. É eliminada pelo piscar normal em poucos minutos. Pode deixar a pálpebra levemente amarelada por algumas horas, que some ao lavar. Inofensivo.
Posso usar maquiagem depois? Sim, sem restrição. Mas pra fazer o exame, não use maquiagem nos olhos: rímel e sombra interferem no resultado.
Quanto tempo até o resultado? Imediato. O médico já sabe o BUT durante o exame e interpreta na mesma consulta, junto com os outros testes de olho seco.
Detalhes técnicos
Craig 2017 (TFOS DEWS II). Os cortes de 5 e 10 segundos vêm do consenso publicado por Craig JP et al., Ocular Surface 2017. O documento revisou as evidências sobre definição, diagnóstico e classificação do olho seco e consolidou o BUT como um dos testes diagnósticos de classe I para instabilidade lacrimal.
ADDE vs EDE: a matriz de classificação. O TFOS DEWS II organiza o olho seco em dois subtipos que podem se sobrepor: olho seco aquoso-deficiente (ADDE) e olho seco evaporativo (EDE). O ADDE inclui a síndrome de Sjögren (com anticorpos Anti-SSA/Ro e SSB/La) e o ADDE não-Sjögren (dano às glândulas lacrimais por radiação, sarcoidose, tracoma, remoção cirúrgica). O EDE tem como causa mais prevalente a disfunção das glândulas de Meibômio (MGD), mas também inclui blefarite seborreica, rosácea ocular, acne rosácea e uso crônico de colírios com preservantes.
MGD e o BUT. As glândulas de Meibômio são glândulas sebáceas modificadas nas pálpebras superior e inferior. Secretam os lipídeos que formam a camada superficial do filme lacrimal, reduzindo a evaporação aquosa. Quando obstruídas ou disfuncionais, a camada lipídica fica fina ou irregular, o filme evapora mais rápido e o BUT cai. A associação MGD-BUT-baixo direciona tratamento específico: higiene palpebral, calor úmido, expressão das glândulas, ômega-3, luz intensa pulsada (IPL) ou azitromicina tópica em casos selecionados.
Reprodutibilidade. O coeficiente de variação intra-sessão do BUT com fluoresceína é alto. O TFOS DEWS II recomenda sempre interpretar em conjunto com outros parâmetros clínicos, nunca como exame isolado decisivo.23
Fontes e referências
American Academy of Ophthalmology (AAO)
NEI (National Eye Institute)
TFOS DEWS II (Tear Film & Ocular Surface Society Dry Eye Workshop II, 2017)
Cochrane Eyes and Vision
Mayo Clinic
- American Academy of Ophthalmology. What is dry eye? Symptoms, causes and treatment. n.d.
- Amescua G, Ahmad S, Cheung AY, et al. Dry eye syndrome preferred practice pattern. Ophthalmology. 2024;131(4):P1-P49.
- Jones L, Downie LE, Korb D, et al. TFOS DEWS II management and therapy report. Ocul Surf. 2017;15(3):575-628.
- Craig JP, Nichols KK, Akpek EK, et al. TFOS DEWS II Definition and Classification Report. Ocul Surf. 2017;15(3):276-283.
- National Eye Institute. Dry eye. n.d.
- Cleveland Clinic. Dry eyes: types, symptoms, causes and treatment. n.d.

