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Dacriocistografia e vias lacrimais: onde está a obstrução

A lágrima escoa por quatro níveis: ponto, canalículo, saco e ducto. Veja onde cada um entope, como o médico localiza e por que nem todo caso vira cirurgia.

Esquema do sistema lacrimal mostrando a glândula lacrimal, o saco lacrimal e o ducto nasolacrimal, com a lágrima transbordando pela face quando a drenagem falha. Fonte: MyUpchar via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Quando o olho lacrimeja o dia inteiro, quase todo mundo recebe a mesma explicação: 'entupiu o canal da lágrima'. Está certo, mas é incompleto. O canal da lágrima não é um tubo só. São quatro trechos em sequência, e o entupimento pode acontecer em qualquer um deles. Descobrir em qual trecho está o problema é o que define o tratamento, porque cada nível se resolve de um jeito diferente.

O caminho que a lágrima faz

Pense na pia da cozinha. A torneira produz água o tempo todo, e o ralo dá conta de escoar. Se o ralo entope, a pia transborda, mesmo que a torneira esteja normal. **No olho é igual: na maioria dos casos o problema não é produzir lágrima demais, é não conseguir escoar.**

O escoamento começa em dois furinhos na borda da pálpebra, perto do nariz, chamados pontos lacrimais. Deles sai um cano curto e horizontal, o canalículo. Os canalículos desembocam num pequeno reservatório junto ao nariz, o saco lacrimal. E do saco desce o ducto nasolacrimal, que despeja a lágrima dentro do nariz. É por isso que a gente funga quando chora.

Esquema dos quatro níveis da via lacrimal: ponto lacrimal, canalículo, saco lacrimal e ducto nasolacrimal, cada um com a causa mais comum de obstrução e o tratamento correspondente.
O trajeto completo e os quatro pontos onde ele pode entupir. O nível determina o tratamento.

Nível 1: o ponto lacrimal

É a entrada do ralo, aquele furinho que dá pra ver a olho nu na borda da pálpebra. Com o tempo ele pode ir se fechando, um quadro chamado estenose do ponto lacrimal. Também entope quando a pálpebra está mal posicionada e o furinho deixa de encostar no olho, ou depois de anos usando certos colírios.

**É o nível mais simples e o de melhor prognóstico.** O oftalmologista consegue ver o ponto na lâmpada de fenda, ali mesmo no consultório, sem exame de imagem nenhum. O tratamento costuma ser uma dilatação do ponto ou uma punctoplastia, procedimento pequeno feito com anestesia local. Não precisa de cirurgia grande.

Nível 2: o canalículo

É o cano horizontal logo depois do ponto, com poucos milímetros de comprimento. As causas mais comuns de obstrução aqui são:

  • Canaliculite, uma infecção crônica que forma grânulos endurecidos dentro do canal. Costuma ser confundida com conjuntivite de repetição que nunca sara.
  • Trauma na pálpebra, principalmente cortes no canto interno do olho, que podem seccionar o canalículo.
  • Cicatriz por inflamação crônica, herpes ocular ou uso prolongado de alguns medicamentos.
  • Quimioterápicos, sobretudo o docetaxel, que pode fechar o canalículo em quem está em tratamento oncológico.

A obstrução alta tem uma pegadinha: **ela pode enganar o exame**. Quando o médico irriga a via com soro, o líquido volta rápido e transparente, sem chegar ao nariz. Isso indica que a parada é precoce, antes do saco lacrimal.

Nível 3: o saco lacrimal

É o reservatório onde a lágrima se acumula antes de descer. **É o nível que dói.** Quando a lágrima fica parada ali, o ambiente favorece infecção, e aparece a dacriocistite: dor, inchaço e vermelhidão no canto interno do olho, às vezes com secreção purulenta saindo pelo ponto quando se aperta a região.

Um detalhe que muda o raciocínio: **a doença do saco quase nunca é o problema original.** Ela costuma ser consequência de uma obstrução mais abaixo, no ducto. O saco vira uma poça de água parada porque o cano de saída está fechado. Por isso o antibiótico resolve a crise mas não resolve o caso, e a infecção volta meses depois.

Quando o conteúdo fica retido sem infectar, forma-se uma mucocele, um abaulamento indolor no canto do olho que o paciente costuma descrever como 'um carocinho que apareceu'.

Nível 4: o ducto nasolacrimal

É o cano final, que desce por dentro do osso até o nariz. **É a obstrução mais comum no adulto**, associada ao envelhecimento e a alterações inflamatórias crônicas da mucosa. Também pode vir de fratura de face, cirurgia nasal prévia, rinite crônica arrastada ou, mais raramente, tumores.

Em bebês a história é outra. A obstrução congênita do ducto é frequente, acontece porque uma membrana na saída do canal ainda não se abriu, e **a maioria abre sozinha no primeiro ano de vida**, com massagem e orientação. Cirurgia em criança fica reservada para os casos que persistem.

Aqui o tratamento definitivo é a [dacriocistorrinostomia (DCR)](/cirurgia-de-dacriocistorrinostomia), que cria uma comunicação nova entre o saco lacrimal e o nariz, contornando o trecho obstruído. Os detalhes da cirurgia, das duas técnicas e da recuperação estão no [guia da DCR](/artigos/obstrucao-das-vias-lacrimais-e-dacriocistorrinostomia).

Como o médico descobre o nível

A maior parte do diagnóstico acontece no consultório, sem máquina nenhuma. A sequência costuma ser esta:

  • Conversa e inspeção. Desde quando lacrimeja, se tem secreção, se já teve crise de dor no canto do olho, se já operou o nariz ou fraturou a face. Depois o exame da pálpebra e dos pontos na lâmpada de fenda.
  • Teste de desaparecimento da fluoresceína. Pinga-se um corante amarelo no olho e observa-se em alguns minutos se ele escoou. Se o corante continua ali, a drenagem está falhando.
  • Sondagem e irrigação. É o exame que mais decide. Uma cânula fina entra pelo ponto e injeta soro. O que acontece com esse soro localiza o nível: se volta pelo mesmo ponto, a parada é alta, no canalículo; se volta pelo outro ponto, a parada é mais baixa; se desce e o paciente sente o gosto na garganta, a via está pérvia e a causa do lacrimejamento é outra.
  • Endoscopia nasal, quando é preciso ver a saída do ducto dentro do nariz ou planejar uma cirurgia endonasal.

Vale registrar o contraintuitivo: olho seco também causa lacrimejamento. O olho irritado por falta de lubrificação dispara uma produção reflexa de lágrima, que vem em excesso e transborda. É por isso que nem todo olho molhado é via lacrimal entupida, e vale checar o olho seco antes de pensar em cirurgia.

Quando entra a dacriocistografia

A dacriocistografia é um exame de imagem do trajeto lacrimal. Injeta-se um contraste pelo ponto lacrimal e fazem-se radiografias enquanto ele percorre o caminho. O resultado mostra o trajeto desenhado e **onde exatamente o contraste para**, além do tamanho do saco lacrimal e de eventuais dilatações e falhas de enchimento.

**Ela não é exame de rotina.** A sondagem e irrigação já resolve a maioria dos casos, é mais rápida e não usa radiação. A dacriocistografia costuma ser reservada para situações específicas:

  • Anatomia distorcida por trauma de face ou cirurgia prévia, quando o cirurgião precisa do mapa antes de operar.
  • Cirurgia anterior de via lacrimal que falhou e não se sabe onde.
  • Suspeita de divertículo, fístula ou massa comprimindo o trajeto.
  • Casos em que o exame de consultório ficou inconclusivo e o quadro não fecha.

Onde se faz o exame: a Ortolan não realiza dacriocistografia. É um exame radiológico, depende de aparelho de raio-X e de contraste, e por isso é feito em serviços de radiologia e laboratórios de imagem, como o Fleury. Não é exame de consultório de oftalmologia.

O que fazemos aqui é a outra metade do caminho. O Dr. Gustavo de Paula, especialista em Vias Lacrimais pela USP, faz a avaliação que indica ou descarta o exame, lê o resultado junto com o quadro clínico e define a conduta para cada nível de obstrução, da dilatação simples do ponto até a dacriocistorrinostomia. Se você já fez o exame em outro serviço e está com o laudo na mão, é essa leitura que transforma a imagem em tratamento.

O tratamento muda conforme o nível

Esse é o motivo de todo o trabalho de localizar a obstrução. Um mesmo sintoma, o olho que lacrimeja, tem quatro desfechos bem diferentes:

  • Ponto lacrimal: dilatação ou punctoplastia, procedimento pequeno em consultório.
  • Canalículo: limpeza dos grânulos na canaliculite, ou reconstrução do canal quando há cicatriz ou secção.
  • Saco lacrimal: antibiótico controla a crise infecciosa, mas o tratamento de fato é corrigir a obstrução que está abaixo.
  • Ducto nasolacrimal: dacriocistorrinostomia, externa ou endonasal, com boas taxas de sucesso.

**Nem toda obstrução vira DCR.** Levar um caso de estenose de ponto direto para a cirurgia grande seria tratar o cano de baixo quando o problema está na entrada. O contrário também acontece: insistir em colírio por anos num ducto obstruído só adia a solução e deixa o paciente com crises repetidas de dacriocistite.

Detalhes técnicos

A sondagem e irrigação diferencia obstrução parcial de total pela resistência à injeção e pelo padrão de refluxo. O refluxo pelo mesmo canalículo sugere obstrução canalicular ipsilateral; o refluxo pelo canalículo oposto indica que o soro chegou ao saco e parou depois dele, apontando para obstrução do ducto ou junção sacoducto.

Além da dacriocistografia convencional, existem a dacriocistografia por subtração digital, que dá imagens mais limpas do trajeto, e a dacriocintilografia, que usa um radiotraçador e avalia a drenagem em condições fisiológicas, sem a pressão da injeção do contraste. A tomografia entra quando a suspeita é de massa, fratura ou doença do seio adjacente, e a ressonância em casos selecionados de tumor de via lacrimal.

Perguntas frequentes

Dúvidas comuns sobre este tema

Onde se faz a dacriocistografia?

Em serviços de radiologia e laboratórios de imagem, como o Fleury, que têm o aparelho de raio-X e o contraste. A Ortolan não realiza o exame: ele não é feito em consultório de oftalmologia. O que fazemos aqui é indicar o exame quando ele é necessário, interpretar o laudo junto com o quadro clínico e conduzir o tratamento, incluindo a cirurgia quando há indicação.

A dacriocistografia dói?

O desconforto costuma ser leve e breve. A parte que incomoda é a colocação da cânula no ponto lacrimal e a injeção do contraste, que dá sensação de pressão no canto do olho. Usa-se colírio anestésico antes.

Todo mundo que lacrimeja precisa fazer o exame?

Não. A maioria dos casos é resolvida com o exame de consultório, principalmente a sondagem e irrigação. A dacriocistografia fica para anatomia alterada por trauma ou cirurgia prévia, cirurgia que falhou e casos em que a avaliação clínica ficou inconclusiva.

Dá para desentupir a via lacrimal sem cirurgia?

Depende do nível. Estenose de ponto costuma responder a dilatação, e obstrução congênita de bebê geralmente abre sozinha com massagem no primeiro ano. Já a obstrução adquirida do ducto no adulto não se resolve com colírio ou massagem, e o tratamento definitivo é cirúrgico.

O olho lacrimeja mas não tenho secreção. Ainda pode ser obstrução?

Pode. Secreção e crostas são mais típicas de obstrução baixa com estase no saco lacrimal. Lacrimejamento isolado, sem secreção, aparece na estenose de ponto, no mau posicionamento da pálpebra e também no olho seco, que produz lágrima reflexa.

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