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Segunda catarata: por que a visão embaça depois da cirurgia?

A catarata não volta, mas a membrana que segura a lente artificial pode opacificar. Sintomas, diagnóstico e quando o laser YAG entra.

Opacidade da cápsula posterior vista em retroiluminação, o achado por trás da chamada segunda catarata.
O principalA catarata não volta, mas a membrana que segura a lente artificial pode opacificar. Sintomas, diagnóstico e quando o laser YAG entra.
Sinal de alertaExiste um grupo de sintomas que não combina com opacidade da cápsula, e que muda a urgência completamente.

Poucas coisas assustam mais quem operou catarata do que a visão voltar a embaçar. A primeira frase costuma ser sempre a mesma no consultório: "doutor, a catarata voltou?"

Não voltou. O cristalino opaco foi removido e não se regenera. O que costuma acontecer é outra coisa, com outro nome e outro tratamento: a opacidade da cápsula posterior, que muita gente conhece como segunda catarata ou catarata secundária.

Sequência em quatro quadros: cristalino opaco, lente intraocular na cápsula transparente, cápsula posterior turva e janela aberta pelo laser YAG.
A mesma cápsula que segura a lente artificial pode ficar turva com o tempo. O laser abre uma janela no centro dela.

Se a catarata não volta, o que embaçou?

Pense no cristalino como uma lente guardada dentro de um saquinho transparente e elástico. Na cirurgia de catarata, o cirurgião abre a frente desse saquinho, retira a lente opaca e coloca a lente artificial dentro do mesmo saquinho, que fica preservado.

Esse saquinho tem nome: saco capsular. A parede de trás dele é a cápsula posterior, uma membrana finíssima que sustenta a lente intraocular no lugar certo pelo resto da vida.

Com o tempo, células que sobraram na borda desse saquinho podem crescer e migrar para o centro, justamente atrás da lente. É essa película nova que embaça a visão, não o cristalino. A cirurgia de catarata que você fez continua bem-sucedida.

O nome técnico é opacidade da cápsula posterior, ou OCP. Em inglês aparece como PCO. Daqui em diante vou chamar só de opacidade da cápsula.

Por que a cápsula fica opaca com o tempo

A cirurgia moderna remove o conteúdo do cristalino, mas é fisicamente impossível remover todas as células epiteliais coladas na borda do saco capsular. Elas continuam vivas. Com o passar dos meses, algumas migram, se multiplicam e mudam de comportamento sobre a cápsula posterior.1

Esse crescimento aparece de duas formas, que costumam conviver:

  • Opacidade fibrosa: as células se transformam e enrijecem a membrana, criando pregas e distorção. Costuma aparecer mais cedo e atrapalha mais o contraste do que a nitidez.
  • Pérolas de Elschnig: as células se agrupam em bolinhas que lembram pérolas quando vistas ao microscópio. É o padrão mais comum em prazo longo, e o embaçamento é mais contínuo.

O tempo até isso acontecer é muito variável. Em algumas pessoas aparece já no primeiro ano; em outras, nunca aparece. Idade jovem na cirurgia, diabetes, uveíte e certos desenhos de lente intraocular pesam nessa conta.

Quais sintomas fazem pensar em segunda catarata

A queixa clássica é enganosa justamente por ser familiar: é parecida com a da catarata original. Quem já passou por isso reconhece a sensação, e é por isso que a palavra "voltou" aparece tão rápido.

  • Embaçamento que se instala devagar, ao longo de semanas ou meses, como se um véu leve tivesse sido colocado na frente do olho.
  • Ofuscamento com luz forte, principalmente com faróis à noite e sol de frente. Halos em volta das luzes são comuns.
  • Perda de contraste: você enxerga a letra grande, mas o texto cinza no fundo branco fica difícil, e o ambiente com pouca luz atrapalha mais do que antes.
  • Imagem dupla ou fantasma em um olho só. O teste caseiro é simples: tape o outro olho. Se a duplicidade continuar, ela é daquele olho, e as dobras da cápsula podem explicar.
  • Sensação de "óculos sujo" que não melhora ao limpar as lentes nem ao piscar.

Quem tem lente intraocular premium, como as multifocais, trifocais e as de foco estendido, costuma notar mais cedo. Essas lentes dividem a luz em vários focos, então qualquer perda de transparência na frente delas cobra caro em qualidade de imagem. Se você escolheu esse caminho, vale ler também sobre monovisão e lentes de foco estendido.

Mapa de sintomas depois da cirurgia de catarata, separando queixas de instalação lenta, que pedem avaliação agendada, de sintomas súbitos, que pedem atendimento no mesmo dia.
O ritmo do sintoma diz mais sobre a urgência do que o sintoma em si.

Existe um grupo de sintomas que não combina com opacidade da cápsula, e que muda a urgência completamente. Se apareceu de repente, em horas ou poucos dias, procure atendimento no mesmo dia:

  • Cortina, sombra ou mancha fixa avançando por um canto da visão.
  • Chuva de pontos pretos novos, muitos de uma vez, em vez daqueles poucos pontinhos antigos que você já conhece.
  • Flashes de luz repetidos, como raios na periferia, principalmente no escuro.
  • Dor forte com olho vermelho, náusea e halos coloridos.

Esses são sinais de descolamento de retina e de crise de pressão, e o tempo conta. O artigo sobre perda de visão rápida detalha cada um deles.

Como o diagnóstico é confirmado no consultório

Não dá para diagnosticar opacidade de cápsula por telefone, e nem só pela queixa. A confirmação é visual e leva poucos minutos.

  • Medida da visão com e sem correção, para saber quanto se perdeu em relação ao melhor momento após a cirurgia.
  • Exame na lâmpada de fenda com a pupila dilatada. O médico olha a cápsula por trás da lente artificial e vê a membrana turva diretamente.
  • Retroiluminação: uma manobra em que a luz refletida no fundo do olho ilumina a cápsula por trás, deixando a opacidade evidente como uma renda ou um vidro fosco.
  • Medida da pressão intraocular e avaliação do nervo óptico, porque o quadro pode conviver com glaucoma.
  • Exame da retina. Além de procurar outras causas para o embaçamento, essa etapa é o que define o preparo caso o laser venha a ser indicado.

A parte mais importante desse exame não é confirmar a opacidade. É excluir o resto. Uma cápsula levemente turva pode ser só um achado, e o que realmente está reduzindo a sua visão pode estar em outro lugar.

O que mais pode estar embaçando a sua visão

Depois de uma cirurgia de catarata, várias coisas competem pela mesma queixa. As mais frequentes:

  • Grau residual. Nem toda lente cai exatamente no alvo calculado. Óculos leves para perto ou longe resolvem sem nenhum procedimento.
  • Olho seco. Muito comum depois de qualquer cirurgia ocular, e uma das causas mais subestimadas de visão flutuante que melhora ao piscar.
  • Problemas da mácula, como membrana epirretiniana, DMRI ou edema. Aqui a queixa costuma incluir distorção das linhas retas.
  • Retinopatia diabética, que pode progredir de forma independente da cirurgia.
  • Glaucoma em evolução, silencioso, que rouba campo visual antes de embaçar o centro.

Fazer o laser numa cápsula pouco opaca não conserta nenhuma dessas causas. Só adiciona um procedimento sem entregar o resultado esperado, e por isso a avaliação vem antes.

Quando o laser é indicado, e quando não é

O tratamento da opacidade da cápsula é a capsulotomia com laser Nd:YAG, também escrita como YAG laser ou capsulotomia a laser. O laser abre uma janela redonda no centro da cápsula, e a luz volta a chegar à retina.

A indicação é clínica, não automática. Ter opacidade não obriga a tratar. O laser costuma entrar quando:

  • A perda de visão já atrapalha a sua vida, seja para ler, dirigir, trabalhar ou usar telas.
  • O ofuscamento passou a limitar tarefas, principalmente dirigir à noite.
  • A opacidade impede o médico de examinar a sua retina ou de tratar uma doença de retina que precisa de acompanhamento.
  • A lente premium perdeu desempenho e a independência de óculos que você tinha regrediu.

E costuma esperar quando a opacidade é discreta, quando a queixa se explica melhor por outra causa, quando há inflamação ativa no olho ou quando a cirurgia de catarata é muito recente. Fazer a capsulotomia no primeiro ano após a cirurgia está associado a mais eventos adversos do que fazer depois, o que reforça o valor da paciência quando o sintoma ainda é leve.2

Os detalhes do procedimento em si, do preparo ao dia do laser, estão na página da capsulotomia por Nd: YAG laser. É lá também que ficam as informações sobre avaliação e agendamento.

Dá para prevenir?

Em parte, e a prevenção acontece na cirurgia, não depois dela. Nenhum colírio impede as células de migrarem, e não existe hoje remédio que evite a opacidade da cápsula.

O que reduz a frequência é o desenho da lente e a técnica cirúrgica. Lentes com borda posterior quadrada, bem truncada, dificultam o avanço das células sobre a cápsula, e a limpeza cuidadosa do saco capsular durante a cirurgia também ajuda.3

Vale registrar o outro lado: quando a opacidade acontece, ela tem um tratamento consolidado, rápido e sem cortes. É um problema com solução conhecida, não uma complicação sem saída.

Detalhes técnicos

A opacidade da cápsula posterior decorre da persistência de células epiteliais do cristalino (LECs) na região equatorial do saco capsular após a facoemulsificação. Essas células proliferam, migram para a cápsula posterior e podem sofrer transição epitélio-mesenquimal, com deposição de matriz extracelular e contração, o que gera as pregas do padrão fibrótico. O padrão regenerativo, com as pérolas de Elschnig, decorre de tentativa desordenada de diferenciação em fibras cristalinianas.1

A revisão Cochrane sobre prevenção da opacidade capsular encontrou benefício consistente das lentes intraoculares com borda posterior quadrada em relação às de borda arredondada, enquanto o material da lente teve efeito menos consistente entre os estudos.3

O tratamento com Nd: YAG foi descrito por Danièle Aron-Rosa e colaboradores em 1980, e o princípio de então é o mesmo de hoje: fotodisrupção por pulsos curtos, sem abrir o olho.4

Na coorte nacional francesa com 6.210 pacientes e 7.958 capsulotomias, a taxa de qualquer evento adverso de interesse foi de 8,6% em 3 meses e 13,3% em 12 meses, com cerca de 5% de hipertensão ocular e cerca de 5% de edema macular em 3 meses, e descolamento de retina em 0,5% ou menos. Capsulotomia realizada no primeiro ano após a cirurgia de catarata associou-se a mais eventos (HR 1,31; IC95% 1,03 a 1,67), e diabetes elevou o risco de edema macular (HR 1,81; IC95% 1,45 a 2,27).2

Perguntas frequentes

Dúvidas comuns sobre este tema

A catarata pode voltar depois da cirurgia?

Não. O cristalino opaco é removido e não se regenera. O que pode acontecer é a opacidade da cápsula posterior, a membrana fina que sustenta a lente intraocular. O sintoma é parecido com o da catarata, mas a causa e o tratamento são outros.

Quanto tempo depois da cirurgia isso costuma aparecer?

É muito variável. Algumas pessoas notam nos primeiros meses, outras só depois de vários anos, e muitas nunca desenvolvem. Idade mais jovem na época da cirurgia, diabetes e histórico de inflamação intraocular tendem a antecipar o quadro.

Existe colírio que evite a segunda catarata?

Não existe medicação que impeça a migração das células epiteliais remanescentes. O que reduz a frequência são fatores da própria cirurgia, principalmente o desenho da lente intraocular com borda posterior quadrada e a limpeza do saco capsular.

Se eu tenho opacidade da cápsula, preciso fazer o laser agora?

Não necessariamente. A indicação depende de quanto a sua visão está sendo afetada e de o exame confirmar que a cápsula é mesmo a causa principal. Opacidade discreta, sem impacto na sua rotina, costuma apenas ser acompanhada.

Como sei se o meu embaçamento é da cápsula ou de outra coisa?

Pelo exame. Grau residual, olho seco, doenças da mácula, retinopatia diabética e glaucoma causam queixas parecidas. O exame com pupila dilatada, a medida da visão, a pressão intraocular e a avaliação da retina separam as causas antes de qualquer indicação de laser.

Este artigo substitui uma consulta?

Não. O conteúdo é educativo e não permite indicar ou descartar tratamento à distância. A avaliação presencial é o que define a causa da sua queixa e a conduta adequada para o seu caso.

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