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Lente escleral pro ceratocone: como é, quem precisa e o que esperar

Quando óculos e lentes rígidas convencionais não bastam mais, a lente escleral é a opção que muitas vezes evita o transplante de córnea: uma lente grande (15-22 mm) que se apoia na esclera e cria uma 'piscina' de fluido sobre a córnea irregular, devolvendo qualidade visual em ceratocone moderado a avançado.

Córnea com ceratocone avançado mostrando irregularidade da superfície anterior - candidatos a lente escleral.

Em muitos pacientes com ceratocone, chega um momento em que os óculos não corrigem mais a visão a contento e as lentes rígidas convencionais não param em cima do cone - escorregam, criam desconforto, machucam a córnea. Esse é o ponto em que a lente de contato escleral entra como uma das mais importantes ferramentas de reabilitação visual da oftalmologia moderna - capaz de evitar o transplante de córnea em uma parcela significativa dos casos.

Este artigo é pra você que já tem ceratocone diagnosticado e está em um desses pontos: queixa visual que os óculos não resolvem, ou tentativa de lente rígida que não deu certo. Vamos cobrir o que é uma escleral, como ela funciona, em quem ela é indicada, como é a adaptação, o conforto, a durabilidade e quanto custa.

O que é uma lente escleral

Corte anatômico do olho mostrando a lente escleral em posição: lente de 15-22 mm passando POR CIMA da córnea com ceratocone (sem encostar nela), apoiada nas bordas da esclera (parte branca), com piscina de soro fisiológico 0,9% preenchendo o espaço entre a lente e a córnea. Estruturas visíveis: lente escleral, piscina de fluido, córnea com ceratocone, humor aquoso, esclera, apoio na esclera.
Como a lente escleral funciona - corte anatômico mostrando que a lente passa POR CIMA da córnea sem tocar nela.

A lente escleral é uma lente rígida gás-permeável de diâmetro grande - entre 15 e 22 mm, comparado aos 9-10 mm de uma RGP convencional. Ela é feita de polímeros altamente permeáveis a oxigênio (Dk > 100) e, em vez de se apoiar na córnea, passa por cima dela sem tocar, fazendo apoio apenas na esclera (a parte branca do olho).

Entre a córnea e a face interna da lente, fica uma piscina de fluido lacrimal estéril que o paciente coloca antes de inserir a lente. Essa piscina regulariza a superfície óptica - é como se você criasse uma nova superfície anterior perfeitamente lisa por cima de uma córnea irregular. O resultado é qualidade visual muito superior ao que se obtém com óculos ou lentes convencionais em ceratocone moderado a avançado.

Como ela funciona (mecanismo óptico)

O ceratocone deforma a superfície anterior da córnea, criando um astigmatismo irregular que não é corrigível por lentes convencionais (óculos, lentes gelatinosas tóricas). A escleral resolve isso pela física: cria uma nova superfície anterior óptica - a face anterior da própria lente - regular e prescrita pela refração necessária. A irregularidade da córnea desaparece opticamente porque a luz não interage mais com ela diretamente - ela passa primeiro pela face da lente, depois pelo fluido (índice de refração similar à córnea), depois pela córnea irregular.

Esse mecanismo é tão potente que pacientes com acuidade visual corrigida de 0,3 com óculos podem chegar a 1,0 com escleral - especialmente em ceratocones moderados a avançados sem cicatrizes centrais densas.

Quando indica - escala progressiva de tratamento

A lente escleral é uma das opções da escala progressiva de reabilitação visual em ceratocone:

1. Óculos - primeira linha, especialmente em ceratocone leve com astigmatismo regular ainda corrigível.

2. Lente gelatinosa tórica - alternativa em casos leves, especialmente em pacientes jovens ou com baixa tolerância a RGP.

3. Lente rígida gás-permeável (RGP) convencional - padrão de ouro histórico para ceratocone moderado, com boa qualidade visual mas adaptação difícil em cones avançados ou paracentrais.

4. Lente piggyback - RGP por cima de uma gelatinosa, em pacientes intolerantes à RGP isolada.

5. Lente híbrida - centro rígido + saia gelatinosa, alternativa intermediária.

6. Lente escleral - quando os passos 1-5 não dão conta. Indicada principalmente em:

• Ceratocone moderado a avançado com irregularidade que RGP não corrige.

Intolerância documentada a RGP convencional ou piggyback.

Cones paracentrais ou inferiores muito descentrados, onde a RGP não para.

Pós-transplante de córnea com astigmatismo irregular residual.

Ectasia pós-LASIK com irregularidade significativa.

Síndrome de olho seco severo associada (a escleral também trata olho seco mecanicamente, pela piscina de fluido).

Adaptação - como é o processo

A adaptação de escleral exige 2 a 4 sessões em consultório com oftalmologista treinado. Os passos típicos são:

Primeira sessão (avaliação inicial): tomografia corneana, OCT de segmento anterior, refração, biomicroscopia. O oftalmologista escolhe a curva base inicial da lente com base na curvatura sagital máxima da córnea + a altura sagital. A lente é colocada e o paciente fica com ela por 30-60 minutos pra avaliação do encaixe (clearance central, apoio escleral).

Segunda e terceira sessões: ajustes finos - troca de curva base, troca de diâmetro, refinamento da prescrição. O paciente leva uma lente de teste pra usar por algumas horas em casa entre as sessões.

Sessão final: entrega da lente definitiva + treino de inserção e remoção. O paciente aprende a usar uma ventosa específica pra inserir (a lente fica de boca pra cima na palma, recebe o fluido estéril, depois é levada ao olho com a cabeça inclinada pra baixo) e remover.

Treino de inserção em casa: os primeiros dias podem ser frustrantes - 30 minutos pra colocar é normal no início. Em 1-2 semanas, a maioria dos pacientes consegue inserir em menos de 5 minutos.

Conforto e uso no dia a dia

Aqui está uma das grandes vantagens da escleral comparada à RGP: o conforto é excelente depois da adaptação. Como a lente não toca a córnea (zona mais sensível do olho), o paciente esquece que está usando após alguns minutos. Pode usar por 8-14 horas por dia sem desconforto significativo, e voltar a usar no dia seguinte.

A lente é colocada de manhã com soro fisiológico 0,9% estéril sem conservantes, em ampolas ou flaconetes de 10 mL (disponíveis em farmácias e drogarias - basta usar de uma vez e descartar) - e retirada à noite. Atenção importante: NUNCA use lubrificantes oculares comuns como Refresh, Systane, Optive, Lacrima e similares como fluido preenchedor da escleral - eles contêm óleos, emulsionantes ou conservantes que entopem a interface e podem causar inflamação. Também NUNCA use água da torneira, água destilada ou solução salina caseira (risco de ceratite por Acanthamoeba, infecção grave). A piscina de fluido precisa ser trocada após 4-6 horas em alguns pacientes - se a visão começar a embaçar, é sinal de que o fluido ficou turvo (debris celulares, mucina) e precisa de uma troca rápida em banheiro privativo, usando outra ampola/flaconete.

Durabilidade, manutenção e cuidados

A lente escleral dura tipicamente 18 a 36 meses, dependendo do cuidado do paciente, do material (Boston XO2, Optimum Extreme, Tisilfocon A são comuns) e da progressão do ceratocone. Pode quebrar se cair e precisar de troca antes.

Cuidados diários: ao retirar, limpar e desinfetar com Boston Simplus - o único sistema multipropósito confiável disponível no Brasil para lentes rígidas e esclerais. Trocar a caixa porta-lentes a cada 3 meses. Nunca usar água da torneira, saliva ou solução salina caseira (risco de ceratite por Acanthamoeba, infecção grave que pode levar a transplante).

Consultas de acompanhamento: a cada 6 meses inicialmente, depois anual. O oftalmologista avalia o encaixe (que pode mudar conforme a córnea evolui ou após crosslinking) e a integridade da lente.

Limitações e quando não dá certo

A escleral não é solução universal. Os principais cenários em que pode não dar certo são:

Cicatriz central densa na córnea - se a córnea já tem opacidade central, a lente não cria visão de qualidade porque a luz é bloqueada antes de chegar à retina. Nesse caso, transplante (DALK ou PKP - veja DALK vs PKP) entra em cena.

Síndrome de olho seco severo refratário - pode tornar a lente difícil de tolerar mesmo com a piscina de fluido.

Dificuldade motora - pacientes com pouca destreza manual (Parkinson, artrite severa) podem não conseguir inserir.

Ambiente de trabalho com poeira intensa ou produtos químicos voláteis - pode reduzir a aderência.

Em pacientes com ceratocone em progressão ativa, a indicação de crosslinking corneano deve ser feita antes ou em paralelo à adaptação de escleral - porque uma córnea que continua se deformando vai exigir trocas frequentes de lente e pode chegar a um ponto onde nem a escleral resolve.

Custo e perspectiva de longo prazo

O custo da lente escleral varia bastante - tipicamente R$ 3.500 a R$ 7.500 por par no mercado brasileiro, dependendo do material, do desenho e da complexidade da adaptação. Não é coberta pela maioria dos planos de saúde no Brasil (em alguns casos há cobertura parcial via reembolso). Pode parecer caro de início, mas comparado ao custo + risco de um transplante de córnea (BRL 2.070 pelo SUS, muito mais na rede privada, e com risco de rejeição vitalícia), a escleral costuma ser infinitamente mais custo-efetiva ao longo da vida.

A grande vantagem estratégica: enquanto a córnea estiver razoavelmente clara e a paquimetria permitir, a escleral pode adiar ou evitar transplante por décadas. Combinada ao crosslinking precoce (que estabiliza a córnea) e ao anel intraestromal em casos selecionados, forma o tripé não-transplante do ceratocone moderno - exatamente a estratégia que a pesquisa do Dr. Lucca na USP mostrou ser altamente custo-efetiva pra o SUS.

Glossário - termos principais

| Termo | Definição |

| --- | --- |

| Lente escleral | Lente de contato grande (15-22 mm) feita de polímero rígido permeável a oxigênio. Apoia-se na esclera (parte branca do olho) e passa por cima da córnea sem tocá-la. |

| Esclera | A parte branca do olho, mais resistente que a córnea. É onde a lente escleral se apoia (sem tocar a córnea irregular). |

| Córnea | Lente externa transparente do olho, responsável por cerca de dois terços do poder óptico total. É a parte que se deforma em ceratocone. |

| RGP (lente rígida gás-permeável) | Lente de contato pequena (9-10 mm) e rígida, padrão histórico para ceratocone moderado. Mais difícil de adaptar em cones avançados ou descentrados. |

| Lente piggyback | Combinação de uma gelatinosa por baixo e uma RGP por cima. Alternativa quando a RGP isolada não é tolerada. |

| Lente híbrida | Centro rígido + saia gelatinosa. Opção intermediária entre RGP e escleral. |

| Astigmatismo irregular | Distorção visual não corrigível por óculos comuns - característica do ceratocone. A lente escleral resolve por criar uma nova superfície óptica regular. |

| Acanthamoeba (ceratite por) | Infecção grave causada por ameba presente em água da torneira, sauna, banheira. Risco em quem usa água da torneira nas lentes (NUNCA fazer). |

| Hipoxia corneana | Falta de oxigênio na córnea, que pode acontecer se dormir com lente. Causa edema e risco de infecção. Por isso a lente escleral é apenas de uso diurno. |

| Boston Simplus | Solução multipropósito única confiável no Brasil pra limpeza e desinfecção de lentes rígidas e esclerais. Encontrada em óticas e farmácias. (Sistemas de peróxido como Clear Care/AOSept, comuns lá fora, não têm distribuição consistente aqui.) |

| Soro fisiológico 0,9% | Solução salina estéril sem conservantes em ampolas ou flaconetes de 10 mL (encontrada em farmácias) que vai dentro da lente antes da inserção. NUNCA usar lubrificantes oculares comuns (Refresh, Systane, Optive, Lacrima) como preenchedor - eles contêm óleos/emulsionantes que entopem a interface. Também NÃO usar água da torneira ou solução salina caseira (risco de Acanthamoeba). |

| Ventosa (plunger) | Acessório de silicone usado pra inserir e retirar a lente escleral. |

| Encaixe (fitting) | Avaliação do ajuste da lente sobre o olho - centralização, clearance central (espaço entre lente e córnea), apoio escleral. Definido em 2-4 sessões de adaptação. |

| Ectasia pós-LASIK | Enfraquecimento corneano progressivo após cirurgia refrativa em córneas com ceratocone subclínico não diagnosticado. Pode ser reabilitada com escleral. |

Perguntas frequentes

Lente escleral cura ceratocone?

Não. A escleral não trata a doença - ela é uma órtese visual que cria uma nova superfície óptica regular sobre a córnea irregular. A doença em si continua existindo. Pra estabilizar a córnea e impedir progressão, o tratamento é o crosslinking. A escleral resolve o problema da visão; o crosslinking resolve o problema da progressão.

Posso dormir com a lente escleral?

Não. A lente escleral é de uso diurno - inserida de manhã e retirada à noite. Dormir com ela aumenta drasticamente o risco de hipoxia corneana e infecção (ceratite microbiana, incluindo Acanthamoeba). A regra é: cama sem lente, sempre.

Quanto tempo dura uma lente escleral?

Tipicamente 18 a 36 meses com cuidado adequado. Pode quebrar se cair. O encaixe pode mudar com progressão do ceratocone ou após crosslinking, exigindo refit ou troca antes desse tempo.

Plano de saúde paga lente escleral?

Na maioria dos casos, não. Alguns planos cobrem parcialmente via reembolso para indicações específicas (pós-transplante de córnea, ceratocone avançado refratário a outras opções), mas é caso a caso. Vale consultar o plano antes da adaptação.

Lente escleral resolve cicatriz na córnea?

Resolve a parte da visão que é prejudicada pela irregularidade, mas não a parte prejudicada por opacidade. Se a cicatriz é central e densa, a luz fica bloqueada antes de chegar à retina - nesse caso, transplante (DALK ou PKP) costuma ser a indicação. Cicatrizes periféricas ou superficiais não-densas costumam ser bem compensadas pela escleral.

Vou conseguir colocar sozinho em casa?

Sim, com prática. Os primeiros dias podem ser frustrantes (30+ minutos pra colocar). Em 1-2 semanas, a maioria dos pacientes consegue inserir em menos de 5 minutos. Usa-se uma ventosa específica + fluido estéril (cloreto de sódio sem conservantes) e a técnica é cabeça pra baixo, espelho na mesa. O treino é parte da adaptação.

Referências

  1. Hansen LO. Custo-efetividade do crosslinking corneano para ceratocone progressivo sob a perspectiva do pagador do Sistema Único de Saúde (tese de doutorado). São Paulo: Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo; 2024.
  2. Schornack MM, Patel SV. Scleral lenses in the management of keratoconus. Eye Contact Lens. 2010;36(1):39-44.
  3. Gomes JA, Tan D, Rapuano CJ, et al. Global consensus on keratoconus and ectatic diseases. Cornea. 2015;34(4):359-369.
  4. Wittig-Silva C, Chan E, Islam FM, Wu T, Whiting M, Snibson GR. A randomized, controlled trial of corneal collagen cross-linking in progressive keratoconus: three-year results. Ophthalmology. 2014;121(4):812-821.
  5. Hansen LO, Garcia R, Torricelli AAM, Bechara SJ. Cost-effectiveness of corneal collagen crosslinking for progressive keratoconus: a Brazilian Unified Health System perspective. Int J Environ Res Public Health. 2024;21(12):1569.
  6. Ambrósio R Jr, Lopes BT, Faria-Correia F, Salomão MQ, Bühren J, Roberts CJ, et al. Integration of Scheimpflug-based corneal tomography and biomechanical assessments for enhancing ectasia detection. J Refract Surg. 2017;33(7):434-443.
  7. Ambrósio R Jr, Caiado AL, Guerra FP, Louzada R, Sinha Roy A, Luz A, et al. Novel pachymetric parameters based on corneal tomography for diagnosing keratoconus. J Refract Surg. 2011;27(10):753-758.
  8. Anwar M, Teichmann KD. Big-bubble technique to bare Descemet's membrane in anterior lamellar keratoplasty. J Cataract Refract Surg. 2002;28(3):398-403.

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Perguntas frequentes

Dúvidas comuns sobre este tema

Lente escleral cura ceratocone?

Não. A escleral cria uma nova superfície óptica regular sobre a córnea irregular, melhorando a visão. A doença em si continua. Pra estabilizar a córnea e impedir progressão, o tratamento é o crosslinking. Escleral resolve a visão; crosslinking resolve a progressão.

Posso dormir com lente escleral?

Não. É de uso diurno apenas. Dormir aumenta drasticamente o risco de hipoxia corneana e infecção (ceratite microbiana, incluindo Acanthamoeba). Cama sem lente, sempre.

Quanto tempo dura uma lente escleral?

Tipicamente 18 a 36 meses com cuidado adequado. Pode quebrar se cair. O encaixe pode mudar com progressão do ceratocone ou após crosslinking, exigindo refit antes.

Plano de saúde paga lente escleral?

Na maioria dos casos, não. Alguns planos cobrem parcialmente via reembolso pra indicações específicas (pós-transplante, ceratocone avançado refratário). Vale consultar antes da adaptação.

Lente escleral resolve cicatriz na córnea?

Resolve a parte da visão prejudicada pela irregularidade, mas não a parte prejudicada por opacidade. Se a cicatriz é central e densa, transplante (DALK ou PKP) costuma ser a indicação. Cicatrizes periféricas ou superficiais são bem compensadas pela escleral.

Vou conseguir colocar sozinho em casa?

Sim, com prática. Os primeiros dias podem ser frustrantes (30+ minutos pra colocar). Em 1-2 semanas, a maioria consegue inserir em menos de 5 minutos. Ventosa + fluido estéril + cabeça pra baixo. O treino é parte da adaptação.

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