Tão importante quanto saber quem pode operar é entender quem não deve, ou para quem existe uma alternativa melhor que o laser. Ser contra-indicado para LASIK não significa que você vai usar óculos para sempre: às vezes é só trocar de técnica.
Ceratocone e topografia suspeita
Se a topografia ou a tomografia de córnea mostrar padrão sugestivo de ceratocone (mesmo na forma muito inicial, chamada de 'ceratocone subclínico'), o LASIK e o PRK convencional estão contraindicados. O laser remove tecido da córnea, e uma córnea com ceratocone que perde espessura pode progredir para ectasia, um enfraquecimento progressivo que piora a visão de forma às vezes irreversível. O rastreamento com tomografia de córnea e mapa epitelial existe exatamente para pegar esses casos antes que qualquer cirurgia aconteça.
Vale dizer: ceratocone diagnosticado não impede toda cirurgia ocular. Mas a indicação muda completamente: o foco passa para estabilizar a córnea (com crosslinking corneano) e eventualmente reabilitar a visão com lentes esclerais ou anel intraestromal.
Córnea fina ou limítrofe
Pense na córnea como uma estrutura que tem um 'limite de gasto': o laser remove tecido para corrigir o grau, e a córnea precisa ter espessura suficiente para absorver essa remoção com margem de segurança. Quando a paquimetria está abaixo do limite ideal para o grau em questão, o risco de ectasia aumenta.
Em córneas finas ou limítrofes, a PRK costuma ser preferível ao LASIK, porque a PRK não cria flap, economizando alguns micrometros preciosos de tecido. Em alguns casos, a combinação de PRK com crosslinking profilático pode ser uma saída. Em outros, a melhor opção é a lente fácica (ICL), que não mexe na córnea e portanto não tem esse limite de espessura.
Olho seco severo
O LASIK secciona nervos da córnea durante a criação do flap, e isso diminui temporariamente a sensibilidade corneana, o que pode piorar ou desencadear olho seco nos meses seguintes. Quem já tem olho seco severo antes da cirurgia tem risco maior de sintomas persistentes no pós-operatório.
Isso não significa que todo paciente com olho seco está excluído: significa que o olho seco precisa estar controlado e tratado antes de qualquer procedimento. A avaliação do filme lacrimal é parte obrigatória do protocolo pré-operatório. Quando o olho seco é muito grave ou refratário ao tratamento, a PRK (que poupa mais nervos que o LASIK) ou a lente fácica (que não toca a córnea) podem ser alternativas melhores.
Grau muito alto além do limite do laser
O laser corneano tem um limite prático de correção: em torno de −10,00 a −11,00 dioptrias para miopia (dependendo da espessura da córnea), +6,00 D para hipermetropia e −4,00 a −6,00 D para astigmatismo. Acima disso, a quantidade de tecido a remover seria excessiva, deixando a córnea fina demais.
Para graus maiores que esses, a lente fácica (ICL) é a alternativa: uma lente fina implantada entre a íris e o cristalino que adiciona poder óptico sem mexer na córnea. Corrige miopia muito alta, em geral acima do limite do laser e até cerca de −20 D, e nesses graus costuma entregar qualidade óptica superior à do laser. É mais cara e envolve uma cirurgia intraocular, mas é reversível e segura em mãos experientes.
Outras contraindicações importantes
- Doenças autoimunes em atividade (lúpus, artrite reumatoide, síndrome de Sjögren não controlada).
- Herpes ocular com episódios recentes: o laser pode reativar o vírus na córnea.
- Cicatrizes corneanas centrais que interfiram na zona de ablação.
- Glaucoma não controlado: a pressão intraocular precisa estar bem controlada antes de qualquer cirurgia, e o tratamento em uso entra no planejamento. Pacientes com glaucoma precisam de avaliação específica pelo especialista.
- Catarata em desenvolvimento: se o cristalino já está opacificando, a troca do cristalino (com lente intraocular calculada para o grau) pode ser a melhor opção, resolvendo catarata e grau de uma vez.
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