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Pterígio: o que é, causas e quando operar

Apareceu uma 'carne' no canto do olho? Entenda o que é o pterígio, por que cresce, quando precisa de cirurgia e o que esperar da recuperação, na voz do Dr. Lucca Ortolan, oftalmologista de córnea e refrativa pela USP.

Pterígio nasal crescendo sobre a córnea em forma de asa: close-up clínico mostrando o tecido fibrovascular avançando a partir do canto nasal do olho.

Por Dr. Lucca Ortolan Hansen, especialista em Córnea, Cirurgia Refrativa e Catarata pela USP, fundador da Ortolan Oftalmologia, Pinheiros, São Paulo.

Toda semana ouço alguma variação da mesma frase no consultório: 'Doutora, apareceu uma carne no canto do meu olho. É grave? Vai crescer? Preciso operar?' Esse guia responde exatamente isso.

O que é esse 'crescimento' no canto do olho?

Anatomia e progressão do pterígio: tecido fibrovascular em forma de asa crescendo do canto nasal sobre a córnea, com os graus I (até 2 mm), II (2 a 4 mm) e III (atinge o eixo visual).
Anatomia do pterígio e seus graus: grau I até 2 mm, grau II de 2 a 4 mm e grau III atingindo o eixo visual.

Imagine que a superfície do olho tem uma cobertura transparente, como um filme fino de plástico. Essa cobertura chama conjuntiva. No pterígio, uma parte dessa conjuntiva cresce de forma desordenada e avança sobre a córnea (a 'janela da frente' do olho) em forma de asa triangular.

O crescimento começa quase sempre pelo canto nasal do olho (o lado próximo ao nariz) e vai avançando em direção ao centro da córnea. O nome vem do grego ptéryx, que significa asa. No dia a dia, as pessoas chamam de 'carnosidade', 'pele crescida', 'carne no olho' ou 'véu no olho'.

O pterígio não é um câncer e, na maioria dos casos, cresce devagar. Mas quando chega perto do centro da córnea, pode distorcer a curvatura do olho e prejudicar a visão.

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Por que o pterígio aparece? Quem tem mais risco?

O pterígio é muito comum no Brasil porque somos um país tropical com alta exposição solar, vento e poeira durante boa parte do ano. É o mesmo motivo pelo qual surfistas, pescadores, agricultores e quem trabalha ao ar livre têm muito mais pterígio do que quem passa o dia dentro de um escritório.

Os fatores que aumentam o risco:

  • Radiação ultravioleta (UV): o principal gatilho. Anos de exposição ao sol, especialmente sem óculos de proteção, estimulam o crescimento anormal do tecido conjuntival.
  • Vento e poeira: ambientes com partículas em suspensão irritam cronicamente a superfície do olho e favorecem o pterígio.
  • Ressecamento: o olho seco crônico, seja por ambiente com ar-condicionado ou por disfunção lacrimal, cria um ambiente mais inflamado que pode acelerar o crescimento.
  • Predisposição individual: existem pessoas que desenvolvem pterígio mesmo com pouca exposição solar. A genética tem algum papel, embora ainda não completamente entendido.

Crianças e adolescentes raramente desenvolvem pterígio. A faixa etária mais comum de aparecimento é a partir dos 30 a 40 anos, com pico entre 40 e 50. Quando aparece em jovens, tende a ser mais agressivo.

Quais os sintomas?

Muita gente descobre o pterígio olhando no espelho ou quando alguém comenta. Na fase inicial, pode não incomodar. Conforme cresce, os sintomas mais frequentes são:

  • Olho vermelho no canto: a vermelhidão é constante porque o pterígio tem uma rede de vasos sanguíneos própria.
  • Ardor e sensação de areia: o tecido saliente perturba o filme lacrimal e irrita ao piscar.
  • Olho seco: o pterígio interfere na distribuição da lágrima sobre a córnea.
  • Visão levemente embaçada: quando o pterígio começa a puxar a curvatura da córnea, induz um astigmatismo irregular que os óculos corrigem com dificuldade.
  • Piora com sol, vento e ar-condicionado: esses ambientes inflamam o pterígio e agravam todos os sintomas acima.

Nos casos mais avançados, o pterígio pode invadir o centro da córnea e causar embaçamento significativo. Nessa fase, a cirurgia é a única solução.

O pterígio tem que operar?

Essa é a pergunta que mais ouço, e a resposta é: nem todo pterígio precisa de cirurgia. Depende do tamanho, dos sintomas e de onde ele está na córnea.

Quando o tratamento é apenas acompanhamento e medidas clínicas:

  • Pterígio pequeno e estável (menos de 2 a 3 mm de invasão corneana), sem sintomas intensos.
  • Pterígio que não avança documentado em duas ou mais consultas ao longo de meses.

Nesses casos, o manejo é: lubrificação frequente com colírios sem conservantes, colírio anti-inflamatório nos surtos de vermelhidão, óculos de sol UV-A/UV-B de uso diário e acompanhamento periódico.

Quando a cirurgia é indicada:

  • Sintomas intensos que não melhoram com colírios e lubrificação.
  • Crescimento progressivo documentado nas consultas (o pterígio claramente avança).
  • Invasão corneana maior que 3 mm ou próxima do eixo visual (a região central que você usa pra enxergar).
  • Astigmatismo induzido pelo pterígio que reduz a qualidade da visão.
  • Questão estética com impacto real no dia a dia (olho vermelho permanente que atrapalha quem trabalha com atendimento ao público).
  • Pré-operatório de cirurgia refrativa ou de catarata: nessas situações, o pterígio precisa ser removido antes para que os exames de planejamento sejam precisos.

A decisão de operar é individualizada. A consulta de córnea e pterígio na Ortolan inclui topografia de córnea para medir o astigmatismo induzido e documentar o grau de invasão, o que ajuda a tomar essa decisão com base em dados concretos.

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Como é a cirurgia de pterígio?

A cirurgia de pterígio moderna usa uma técnica chamada autoenxerto conjuntival com cola biológica de fibrina. O nome parece complicado, mas a ideia é simples e elegante.

Passo a passo:

  • Anestesia local (colírio anestésico + injeção pequena sob a conjuntiva). Sedação leve é uma opção. Você fica acordado, mas sem sentir nada.
  • Remoção do pterígio: o cirurgião remove o tecido que cresceu sobre a córnea e deixa uma área de esclera (o branco do olho) exposta.
  • Colheita do enxerto: um pequeno pedaço da sua própria conjuntiva (da região superior do olho, que cicatriza bem e não fica visível) é retirado.
  • Fixação com cola biológica: esse enxerto é colado sobre a área exposta usando cola de fibrina, sem pontos cirúrgicos. A cola se integra ao tecido em horas.
  • Curativo e alta: o paciente vai pra casa no mesmo dia, com curativo por algumas horas.

A cirurgia dura 30 a 45 minutos por olho e é feita em ambiente cirúrgico ambulatorial. Não precisa de internação.

Por que usar o enxerto do próprio paciente? Porque a conjuntiva autóloga (do próprio corpo) é o melhor material para criar uma barreira biológica no local onde o pterígio cresceu, reduzindo muito o risco de ele voltar.

Saiba mais sobre a cirurgia de pterígio na Ortolan

A cirurgia de pterígio dói?

Durante a cirurgia, não. A anestesia local bloqueia a dor completamente.

Nos primeiros 3 a 5 dias depois, há desconforto real: ardor, sensação de areia, lacrimejamento e sensibilidade à luz. Não é insuportável (a maioria compara a uma pedra no olho persistente), mas incomoda. Os colírios antibiótico e anti-inflamatório que prescrevemos ajudam bastante, e analgésico oral cobre o que sobrar.

A partir do 4º ou 5º dia, o desconforto melhora progressivamente. A maioria dos pacientes volta ao trabalho em 3 a 7 dias, dependendo da profissão.

A visão fica um pouco embaçada nas primeiras semanas enquanto o enxerto cicatriza. O olho estabiliza com as correções de visão entre 4 e 8 semanas após a cirurgia. Só depois disso, se houver necessidade de óculos novos, a refração é refeita.

O pterígio volta depois da cirurgia?

Essa é a pergunta que mais preocupa os pacientes, e faz sentido. Com a técnica antiga, chamada 'esclera nua' (sem enxerto), o pterígio voltava em 30 a 50% dos casos. Por isso essa técnica foi abandonada.

Com a técnica moderna (excisão + autoenxerto conjuntival + cola biológica), a taxa de recidiva cai para algo em torno de 5 a 10%. Não é zero, mas é muito menor.

Os fatores que aumentam a chance de recidiva:

  • Idade jovem (menos de 40 anos): o tecido conjuntival é mais ativo e cresce mais facilmente.
  • Pterígio agressivo ou carnoso (classificado como grau T3 pela escala de Tan): o tecido mais denso e vascularizado tem mais chance de voltar.
  • Exposição solar sem proteção após a cirurgia: o UV é o mesmo gatilho que causou o pterígio pela primeira vez.

A proteção UV depois da cirurgia não é opcional: é parte do tratamento. Óculos de sol com proteção UV-A e UV-B, chapéu de aba larga ao ar livre e lubrificação frequente são os principais aliados para evitar que o pterígio volte.

Como prevenir e impedir que volte

As mesmas medidas que previnem o pterígio também evitam a recidiva pós-operatória:

  • Óculos de sol com proteção UV-A e UV-B de uso diário, especialmente em atividades ao ar livre. Wraparound (que protegem também as laterais) são ideais pra quem trabalha muito no sol.
  • Chapéu de aba larga ao sol: complementa os óculos e reduz a exposição direta.
  • Lubrificação frequente com colírios sem conservantes: mantém o filme lacrimal saudável e diminui a inflamação crônica da superfície ocular.
  • Evitar ambientes com vento, poeira e ar seco prolongados: quando inevitável, usar óculos de proteção e lubrificação mais frequente.

Se você tem olho seco, tratar bem essa condição também ajuda a manter o pterígio estável ou evitar recidiva após cirurgia.

Detalhes técnicos

Para quem quer entender mais a fundo:

Anatomia: o pterígio cresce a partir da região límbica (junção entre conjuntiva e córnea), onde células-tronco epiteliais são mais ativas. A exposição UV ativa o fator VEGF (fator de crescimento vascular), estimulando a proliferação de fibroblastos e vasos sanguíneos que invadem o estroma corneano. O crescimento é fibrovascular: tecido fibroso + rede de vasos.

Classificação de Tan por translucência: T1 (vasos da esclera visíveis por baixo do pterígio, menos agressivo), T2 (parcialmente visíveis), T3 (vasos esclerais não visíveis, tecido carnoso e denso, maior risco de recidiva).

Classificação por grau de invasão: grau I até 2 mm sobre a córnea; grau II entre 2 e 4 mm; grau III acima de 4 mm ou envolvendo o eixo visual.

A topografia de córnea quantifica o astigmatismo induzido pelo pterígio e documenta o ponto de invasão. Isso é especialmente relevante quando se planeja fazer cirurgia refrativa (LASIK, PRK, SMILE) depois: o pterígio é operado primeiro, a córnea estabiliza por 4 a 8 semanas, e só então os exames pré-cirúrgicos definitivos são realizados.

Mitomicina C intraoperatória: em casos de pterígio recorrente ou com características agressivas, uma solução de mitomicina C pode ser aplicada por alguns minutos na esclera exposta antes do enxerto. Inibe a proliferação de fibroblastos e reduz o risco de recidiva em situações de alto risco.

Diagnóstico diferencial importante: a pinguécula é um depósito amarelado na conjuntiva que não cresce sobre a córnea. O pterígio invade a córnea. Algumas lesões com aspecto semelhante ao pterígio podem ser neoplasias da superfície ocular (OSSN ou doença de Bowen): essas têm aspecto mais irregular, vascularização atípica e crescimento mais rápido. Em lesões com características suspeitas, a biópsia é obrigatória antes de qualquer intervenção.

O Dr. Lucca Ortolan Hansen, a Dra. Letícia Yagi e a Dra. Nicole Bulgarão são os especialistas de córnea da Ortolan que avaliam e operam pterígios.

Fontes e referências

As informações deste artigo seguem as diretrizes e a evidência clínica publicada pelas seguintes instituições:

  • AAO EyeWiki (American Academy of Ophthalmology) — Pterygium: epidemiology, classification, treatment and recurrence.
  • NEI / NIH (National Eye Institute) — informações sobre doenças da superfície ocular e pterígio.
  • Mayo Clinic — visão geral de pterígio: sintomas, causas e tratamento.
  • Cleveland Clinic — pterígio: quando operar, recuperação e prevenção de recidiva.
  • AAO PPP (Preferred Practice Patterns) — conjuntival and corneal surface conditions.
  • Cochrane — revisões sistemáticas sobre técnicas cirúrgicas para pterígio e taxas de recidiva.

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Perguntas frequentes

Dúvidas comuns sobre este tema

Pterígio tem que operar?

Não necessariamente. Pterígios pequenos e estáveis podem ser acompanhados clinicamente com lubrificação, colírios anti-inflamatórios em surtos e proteção UV rigorosa. A cirurgia é indicada quando há sintomas intensos que não melhoram com colírios, crescimento progressivo documentado, invasão corneana maior que 3 mm, astigmatismo induzido pelo pterígio ou queixa estética com impacto real na vida do paciente.

A cirurgia de pterígio dói?

Durante a cirurgia não: a anestesia local bloqueia a dor completamente. Nos primeiros 3 a 5 dias após, há desconforto moderado: ardor, sensação de areia e lacrimejamento enquanto o enxerto conjuntival cicatriza. Os colírios prescritos ajudam bastante. A maioria dos pacientes fica confortável a partir do 4º ou 5º dia.

O pterígio volta depois da cirurgia?

Pode voltar, mas com a técnica moderna (excisão + autoenxerto conjuntival + cola biológica) a taxa de recidiva fica em torno de 5 a 10%. Com a técnica antiga (esclera nua, sem enxerto), a recidiva chegava a 30 a 50% e por isso foi abandonada. O principal fator controlável para evitar recidiva é a proteção UV diária com óculos de sol após a cirurgia.

O que é a 'carne crescida' no olho?

É o pterígio: um crescimento do tecido conjuntival (a membrana que cobre o branco do olho) sobre a córnea, em forma de asa triangular. Começa quase sempre pelo lado nasal (próximo ao nariz). Não é câncer, mas pode crescer em direção ao centro da visão e causar embaçamento e astigmatismo se não for acompanhado.

Quanto tempo leva pra cicatrizar depois da cirurgia?

O desconforto principal passa em 3 a 5 dias. A maioria dos pacientes volta ao trabalho em 3 a 7 dias. A visão e o astigmatismo se estabilizam em 4 a 8 semanas. O acompanhamento habitual é feito em 1 dia, 1 semana, 1 mês, 3 meses, 6 meses e 1 ano após a cirurgia.

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