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Como tratar a conjuntivite? Quais tipos de conjuntivite?

Os tipos de conjuntivite (viral, bacteriana, alérgica), colírio certo pra cada um, quanto tempo dura, e quando procurar oftalmologista.

Olho humano com conjuntivite viral, nota-se a vermelhidão dos olhos.

Olho vermelho, coceira intensa, lacrimejamento que não para: parece conjuntivite, mas qual tipo é o seu? A resposta muda tudo. O colírio errado prolonga o quadro; corticoide sem indicação numa conjuntivite viral pode piorar a infecção. E alguns olhos vermelhos não são conjuntivite nenhuma, mas urgências que precisam do pronto-socorro.

Este guia detalha os seis tipos de conjuntivite, o tratamento certo pra cada um, quanto tempo dura, quando o olho vermelho vira urgência e como diferenciar conjuntivite de outras doenças. É tudo o que você precisa saber antes de abrir o aplicativo do banco pra comprar colírio por conta própria.

Anatomia do olho mostrando a conjuntiva, membrana transparente que cobre o branco do olho.
A conjuntivite é a inflamação da conjuntiva, a membrana fina e transparente que cobre o branco do olho.

Tipos de conjuntivite

Conjuntivite é um nome guarda-chuva para a inflamação da conjuntiva, a membrana transparente que recobre o branco do olho (esclera). Quem inflama essa membrana pode ser um vírus, uma bactéria, um alérgeno ou um produto químico. Cada agente tem comportamento diferente e pede tratamento diferente.

Comparação rápida entre os tipos:

  • Viral · coceira leve a moderada · secreção aquosa, clara · começa num olho e passa pro outro · alta contagiosidade · dura 7-14 dias · trat: lágrima artificial e compressa gelada
  • Bacteriana · secreção purulenta amarela/verde, cílios colados · contagiosidade moderada · dura 3-5 dias com colírio antibiótico prescrito
  • Alérgica · coceira intensa, bilateral · secreção mucosa filamentosa, nunca purulenta · não contagiosa · dura enquanto houver gatilho · trat: antialérgico tópico
  • Tóxica/irritativa · vermelhidão após contato com produto · não contagiosa · resolve em horas a dias · trat: afastar o agente + lágrima artificial
  • Traumática · após impacto, corpo estranho, arranhão · avaliação oftalmológica imediata obrigatória
  • Atópica (grave) · associada a asma e dermatite · pode lesar a córnea · manejo multidisciplinar
Guia visual relacionando o sintoma dominante ao tipo provável de conjuntivite, com contágio, duração média e tratamento principal de cada um.
Cada tipo de conjuntivite tem contágio, duração e tratamento diferentes. Confirme sempre o diagnóstico com o oftalmologista.
Esquema médico ilustrando a conjuntivite, com a conjuntiva inflamada e os vasos sanguíneos dilatados.
Esquema ilustrativo da conjuntivite, com inflamação da conjuntiva e dilatação dos vasos.

Conjuntivite viral

Se você acordou com um olho vermelho, lacrimejante e sem aquela secreção amarelada espessa, a causa mais provável é viral. Nenhum antibiótico resolve isso. O agente campeão é o adenovírus, vírus da família dos resfriados, responsável por boa parte das epidemias em escolas e consultórios. Saiba mais sobre conjuntivite viral.

Como reconhecer a conjuntivite viral

O quadro costuma ser fácil de reconhecer pela história. Em geral um olho começa vermelho e, dois a quatro dias depois, o outro segue:

  • Vermelhidão intensa que começa num olho e migra pro outro.
  • Secreção aquosa ou levemente esbranquiçada, nunca amarela espessa.
  • Lacrimejamento constante, ardência e sensação de areia no olho.
  • Coceira leve a moderada (muito menor do que na alérgica).
  • Íngua atrás da orelha ou no pescoço que o paciente às vezes percebe ao se tocar.
  • Fotossensibilidade leve, o olho fica mais sensível à luz.

Adenovírus e ceratoconjuntivite epidêmica

O adenovírus tem muitos sorogrupos. A maioria causa uma conjuntivite chata mas passageira. Alguns poucos sorogrupos, porém, são muito mais agressivos: os sorogrupos 8, 19 e 37 causam a ceratoconjuntivite epidêmica (conhecida pelos médicos como EKC, de Epidemic Keratoconjunctivitis), um tipo agressivo que invade a córnea.

Na EKC, além de toda a vermelhidão e lacrimejamento da conjuntivite comum, o vírus atravessa para a córnea e provoca pontos brancos (chamados infiltrados subepiteliais) que causam visão turva. Esses pontos podem persistir por meses depois que o olho já parece curado. A contagiosidade é muito alta, e epidemias em consultórios e enfermarias acontecem quando a higienização de equipamentos falha.

Herpes simples e herpes-zóster

O herpes simples (HSV) e o herpes-zóster oftálmico (HZO) são causas menos comuns de conjuntivite viral, mas muito mais sérias. O herpes simples pode reativar no olho depois de um período de estresse ou baixa imunidade e causar úlceras na córnea. O zóster oftálmico segue o trajeto do nervo trigêmeo e pode comprometer a córnea, a íris e até a retina.

Se o olho vermelho vier acompanhado de bolhinhas na pele da pálpebra ou testa, procure o oftalmologista no mesmo dia: pode ser herpes-zóster, que tem janela de tratamento antiviral. Não é conjuntivite comum.

Contágio e como evitar epidemia

O adenovírus é extremamente resistente fora do corpo. Ele sobrevive por horas a dias em superfícies secas como maçanetas, botões de elevador, teclados, toalhas e canetas. Tocar numa superfície contaminada e depois levar a mão ao olho já basta pra pegar a doença. A transmissão é indireta com a mesma facilidade com que é direta (por contato com olho ou secreção).

Em escolas, consultórios, ônibus e locais fechados, um único caso costuma virar epidemia em poucos dias. Medidas que realmente ajudam:

  • Lavar as mãos com frequência, com água e sabão, por pelo menos 20 segundos.
  • Não compartilhar toalha, fronha ou qualquer objeto que toque o rosto.
  • Álcool 70% funciona bem em superfícies duras para o adenovírus.
  • Afastamento escolar ou do trabalho enquanto o olho estiver na fase aguda (em geral 7-10 dias).
  • Não aplicar colírio em si mesmo e depois em outra pessoa com o mesmo frasco.

Tratamento da conjuntivite viral

A conjuntivite viral não tem antiviral tópico eficaz disponível no Brasil pra uso geral. O tratamento é de suporte: compressa gelada e lágrima artificial pra aliviar o desconforto. O sistema imune resolve sozinho em 1 a 2 semanas.

Em casos com pseudomembranas, infiltrados corneanos que comprometem a visão ou inflamação intensa, o oftalmologista pode prescrever corticoide fraco em colírio. Mas isso é avaliação caso a caso, presencial. Corticoide nas formas leves reduz a resposta imune e pode prolongar a infecção.

Atenção: corticoide sem prescrição em conjuntivite viral pode piorar o quadro. A redução da imunidade local aumenta a replicação do adenovírus e prolonga o tempo de doença.

Complicações: pseudomembranas e infiltrados

Em casos graves de adenovírus, dois achados preocupam o oftalmologista. As pseudomembranas são filmes esbranquiçados que se formam sobre a conjuntiva da pálpebra, compostos de exsudato inflamatório. Quando não removidas, podem deixar cicatrizes finas na conjuntiva. O oftalmologista remove com haste estéril durante a consulta.

Os infiltrados subepiteliais são pontos brancos que ficam na córnea depois que a inflamação passa. Causam sensação de embaçamento e halos, e podem demorar meses pra sumir. Não são permanentes na maioria dos casos, mas exigem acompanhamento.

Veja à esquerda conjuntivite bacteriana e à direita a conjuntivite alérgica. O aspecto e a secreção são bem diferentes para o médico oftalmologista.
Conjuntivite bacteriana (esquerda) e alérgica (direita): o aspecto da secreção é bem diferente e ajuda o oftalmologista no diagnóstico.

Conjuntivite bacteriana

Cílios colados e secreção amarela ou verde ao acordar são o sinal que mais aponta pra bactéria. A conjuntivite bacteriana é menos comum do que a viral e tem contágio mais limitado. Veja mais sobre conjuntivite bacteriana.

Como reconhecer a conjuntivite bacteriana

  • Secreção purulenta abundante, amarela-esverdeada, que cola os cílios pela manhã.
  • Olho vermelho com início por vezes em só um olho, mas frequentemente bilateral.
  • Incômodo e lacrimejamento, geralmente sem a coceira intensa da alérgica.
  • Ausência de íngua atrás da orelha (diferente da viral).

Mito: olho remelento ao acordar nem sempre é bactéria. A conjuntivite viral também produz secreção, só que mais aquosa e menos espessa. O diagnóstico correto poupa antibiótico desnecessário.

Bactérias mais comuns

Na maioria dos adultos, as bactérias envolvidas são as que habitam a própria pele e mucosas de forma natural: Staphylococcus aureus e Staphylococcus epidermidis. Em crianças, os agentes mais frequentes são Haemophilus influenzae, Streptococcus pneumoniae e Moraxella catarrhalis. Todas essas respondem bem a antibióticos tópicos.

Gonocócica e clamídia: casos especiais

Dois agentes merecem atenção especial. A conjuntivite gonocócica, causada pela Neisseria gonorrhoeae (a bactéria da gonorreia), é uma emergência: a secreção é extremamente abundante e, se não tratada rapidamente, a bactéria pode perfurar a córnea em horas. Se o olho está produzindo pus em quantidade que escorre antes de você conseguir limpar, vá ao pronto-socorro.

A clamídia (Chlamydia trachomatis) causa a conjuntivite de inclusão, que é crônica e muitas vezes subdiagnosticada. Em países em desenvolvimento, a cepa que causa o tracoma (uma forma grave de clamídia) é a principal causa de cegueira evitável no mundo. No Brasil, o tracoma ainda existe em regiões de saneamento precário.

Conjuntivite neonatal

Qualquer secreção no olho de um recém-nascido (até 28 dias) é urgência. A conjuntivite neonatal, chamada de oftalmia neonatal, pode ser causada por gonococos ou clamídia transmitidos durante o parto. Sem tratamento imediato, pode causar cegueira permanente. A profilaxia com colírio de nitrato de prata ou antibiótico na sala de parto existe exatamente pra prevenir isso.

Se o bebê tiver olho vermelho ou secreção, não espere. Vá direto ao pronto-socorro pediátrico ou oftalmológico.

Tratamento e por que não automedicar antibiótico

O tratamento correto é antibiótico tópico prescrito pelo médico: ciprofloxacino, ofloxacino, tobramicina ou moxifloxacino são as opções mais comuns. A duração costuma ser de 5 a 7 dias.

O problema de automedicar: a maioria dos casos de olho vermelho rotulados como conjuntivite bacteriana é, na verdade, viral. Antibiótico não trata vírus. Usar antibiótico pra vírus não adianta nada pra você e contribui com resistência bacteriana na população, tornando as bactérias mais difíceis de tratar no futuro pra todos.

Conjuntivite alérgica

Se a coceira é o sintoma que mais incomoda e o olho fica pior em certas épocas ou perto de animais, pense em alergia antes de infecção. A conjuntivite alérgica não é contagiosa. Você não pega nem passa adiante. Entenda mais sobre conjuntivite alérgica.

Como reconhecer: a coceira manda

Na conjuntivite alérgica, a coceira é o sintoma-chave. Ela é bilateral (os dois olhos incomodam ao mesmo tempo), piora ao coçar (o que parece aliviante no momento) e costuma ser acompanhada de rinite, espirros ou outros sintomas alérgicos:

  • Coceira intensa, bilateral, o sintoma mais marcante.
  • Vermelhidão dos dois olhos, às vezes com inchaço da pálpebra.
  • Secreção mucosa esbranquiçada ou filamentosa, nunca amarela purulenta.
  • Fotofobia, os olhos ficam intolerantes à luz forte.
  • Associação frequente com rinite alérgica, sinusite ou asma.

Sazonal e perene

Existem dois grandes grupos de conjuntivite alérgica. A sazonal (conhecida na literatura como SAC, de Seasonal Allergic Conjunctivitis) aparece em certas épocas do ano, geralmente quando há mais pólen no ar. No Brasil, isso varia por região: em São Paulo, o outono costuma ser a estação das gramas e ervas daninhas.

A perene (PAC, de Perennial Allergic Conjunctivitis) está presente o ano todo porque o alérgeno está o tempo todo no ambiente. Os ácaros (Dermatophagoides pteronyssinus e farinae) são os campeões: eles vivem em colchões, travesseiros e carpetes e causam sintomas crônicos que o paciente às vezes nem associa à alergia.

Gatilhos mais comuns no Brasil: ácaros da poeira doméstica, pelos e caspa de gatos e cachorros, baratas, fungos e bolores, e também cosméticos e colírios preservados com benzalcônio.

Vernal e atópica: formas graves

As formas graves de alergia ocular ficam num grupo separado. A conjuntivite vernal (VKC, de Vernal Keratoconjunctivitis) afeta principalmente crianças e adolescentes do sexo masculino e piora muito na primavera. O sinal clássico são as papilas gigantes na conjuntiva da pálpebra superior, que parecem pedras quando o médico vira a pálpebra. Pode causar dano à córnea se não controlada.

A conjuntivite atópica (AKC, de Atopic Keratoconjunctivitis) está associada à dermatite atópica e costuma afetar adultos. É a forma mais persistente e pode causar cicatrizes na conjuntiva e na córnea ao longo dos anos.

Nas duas formas graves, o ciclosporina 0,1% em emulsão catiônica (Verkazia) mostrou eficácia no controle em estudo multicêntrico. Reservar esses casos para o oftalmologista especializado em superfície ocular é fundamental.

Caso de conjuntivite alérgica crônica, agudizada em paciente com hábito de esfregar as pálpebras - nota-se que a pele fica mais endurecida e grossa (eczema). Geralmente é bilateral, mas o paciente se queixa e coça mais de um dos olhos.
Conjuntivite alérgica crônica com eczema palpebral: pele espessada pelo hábito de esfregar os olhos.

Atenção: coçar os olhos com força, o alívio imediato que todos buscam ao sentir coceira, é um hábito que pode deformar a córnea ao longo dos anos. Esse processo está diretamente ligado ao desenvolvimento do ceratocone, uma doença que afina e distorce a córnea. Controlar a coceira com colírio antialérgico protege a córnea.

Papilar gigante e lente de contato

A conjuntivite papilar gigante (GPC, de Giant Papillary Conjunctivitis) não é uma alergia ambiental. É uma reação ao atrito mecânico das lentes de contato moles ou rígidas na conjuntiva da pálpebra superior. O resultado são papilas grandes que causam coceira, muco e intolerância à lente.

Quem usa lente de contato e sente coceira progressiva ao longo do dia, excesso de muco ou a lente começando a escorregar na córnea, pode estar desenvolvendo GPC. O tratamento envolve suspender ou reduzir o uso da lente, troca de material ou geometria, e antialérgico tópico. Em casos graves, corticoide fraco ou ciclosporina.

Tratamento da conjuntivite alérgica

O tratamento tem três pilares: identificar e reduzir o gatilho, aliviar os sintomas com colírio e, nos casos graves, usar imunossupressor tópico.

  • Colírios antialérgicos de dupla ação (anti-histamínico + estabilizador de mastócito) são a primeira escolha: epinastina (Octifen), alcaftadina (Lastacaft), olopatadina (Patanol S), cetirizina (Zerviate). Precisam de prescrição.
  • Compressa gelada entre as doses reduz a coceira rapidamente.
  • Afastar o alérgeno quando possível: capas antiácaro no colchão, afastar o animal do quarto, reduzir tapetes e pelúcias.
  • Corticoide tópico (fluorometolona, loteprednol) pode ser necessário nos surtos agudos graves, sempre com prazo e sob supervisão.
  • Ciclosporina tópica nos casos crônicos intensos (VKC, AKC) que não respondem aos antialérgicos convencionais.

Para mergulhar fundo no tema, este guia completo sobre colírios para alergia ocular tem as opções detalhadas com mecanismo e quando cada uma é indicada.

Para alergia ocular intensa associada a rinite, a abordagem do alergista pode incluir imunoterapia (dessensibilização), que trata o problema na raiz. Ver também olhos coçando e vermelhos para diferenciar causas.

Conjuntivite tóxica ou irritativa

Você expôs o olho a um produto e ele ficou vermelho. Não há nenhum vírus, nenhuma bactéria, nenhum alérgeno: é uma reação química direta. O diagnóstico é feito pela história, o paciente sabe o que aconteceu antes dos sintomas.

Causas comuns da conjuntivite tóxica

  • Fumaça de cigarro e poluição em ambientes fechados.
  • Cloro de piscina, especialmente em piscinas com pH desregulado.
  • Cosméticos: rímel, sombra, removedor de maquiagem que entrou no olho.
  • Produtos de limpeza: sprayes, detergentes, alvejantes, tinta.
  • Colírios usados em excesso ou com conservantes irritantes (benzalcônio de cloridrato, especialmente em olho seco já comprometido).
  • Gases irritantes em ambiente de trabalho.
Conjuntivite Tóxica ou Conjuntivite Irritativa causada pela exposição à produtos químicos que irritam os olhos.
Conjuntivite tóxica ou irritativa: vermelhidão por exposição a produto químico, sem infecção envolvida.

Tratamento da conjuntivite tóxica

O tratamento é simples: afastar o agente irritante e lubrificar com lágrima artificial sem conservante. Não é necessário antibiótico, a não ser que haja suspeita de infecção secundária. Em exposições com produto cáustico (ácido, base forte, cal), irrigar o olho com água corrente por 10-15 minutos imediatamente e ir ao pronto-socorro: essa é uma emergência química.

Conjuntivite traumática

Qualquer impacto, arranhão ou corpo estranho no olho pode inflamar a conjuntiva. O problema é que o trauma pode ter causado algo bem mais sério do que uma conjuntivite: uma lesão corneana, uma uveíte traumática, um aumento agudo da pressão intraocular ou até um descolamento de retina.

Quando é urgência

Todo olho vermelho após trauma exige avaliação oftalmológica no mesmo dia, mesmo que a dor pareça leve e a visão pareça normal. Sinais que pedem pronto-socorro imediato:

  • Dor intensa que não alivia.
  • Queda de visão após o impacto, mesmo que parcial.
  • Objeto penetrante no olho (prego, farpas de vidro, estilhaços): não tente remover, vá ao pronto-socorro cobrindo o olho com protetor rígido, sem pressionar.
  • Deformidade na pupila ou no globo ocular.
  • Vermelhidão que piora progressivamente depois do trauma.

Cuidados imediatos

Enquanto não chega ao médico, não esfregue o olho. Se for exposição química, irrigue com água em abundância por 10-15 minutos. Se for corpo estranho superficial que você consegue ver, pisque repetidamente pra tentar expulsar com a própria lágrima. Se não sair facilmente, não force: deixe pra o oftalmologista remover com instrumentos adequados.

Conjuntivite atópica

A conjuntivite atópica (AKC) merece uma seção própria porque vai muito além de uma alergia ocular comum. Ela ocorre em pacientes que têm outras condições atópicas, como dermatite atópica, asma ou rinite crônica grave, e tende a ser crônica, bilateral e progressivamente mais intensa.

Quando a alergia se torna grave

Na conjuntivite atópica, a inflamação crônica da conjuntiva pode avançar pra córnea (daí o nome ceratoconjuntivite atópica). Esse processo é mais lento do que na VKC (vernal), mas igualmente preocupante: meses a anos de inflamação mal controlada podem criar cicatrizes e comprometer a visão de forma permanente.

O tacrolimo 0,03% tópico mostrou segurança e eficácia no controle de casos pediátricos graves de ceratoconjuntivite atópica que não responderam a antialérgicos convencionais, sendo uma opção para os casos refratários.

Lesão da córnea

Quando a inflamação atópica atinge a córnea de forma intensa e recorrente, pode resultar em leucoma corneano, uma cicatriz branca opaca que reduz a acuidade visual. Em casos avançados, o tratamento pode exigir transplante de córnea. A prevenção passa pelo controle precoce e consistente da inflamação.

O exame com fluoresceína ou verde lissamina (corantes que revelam dano na superfície ocular) ajuda o oftalmologista a avaliar o grau de comprometimento corneano. Veja mais sobre colorações vitais.

Ver imagem clínica (pode ser sensível)
Ceratoconjuntivite Atópica (conjuntivite atópica com lesão de córnea). Note a inflamação da pálpebra superior e inferior associada.
Ceratoconjuntivite atópica com lesão de córnea: inflamação crônica grave com comprometimento da transparência corneana.

Equipe multidisciplinar

A conjuntivite atópica raramente é tratada só pelo oftalmologista. As outras condições atópicas precisam de controle paralelo pra que a inflamação ocular melhore de verdade. O alergoimunologista trata a hipersensibilidade sistêmica, o dermatologista controla a dermatite palpebral, o pneumologista cuida da asma, e o pediatra (em crianças) coordena o cuidado. O oftalmologista cuida dos olhos, mas sem os outros especialistas o resultado é incompleto.

Colírio para conjuntivite: qual usar em cada tipo

Não existe um colírio universal pra conjuntivite. Cada tipo tem uma lógica diferente. O colírio errado pode atrasar a melhora ou, no caso do corticoide usado sem indicação, transformar uma conjuntivite chata numa infecção grave. A prescrição é sempre do oftalmologista.

Lágrima artificial

Útil em todos os tipos. Alivia o desconforto, dilui agentes irritantes e dilui a carga viral ou bacteriana na superfície. Prefira sem conservante (os flaconetes dose-única ou os sistemas sem conservante) se for usar mais de 4 vezes ao dia ou se tiver olho seco de base. Não precisa de receita.

Antibióticos tópicos

Indicados na conjuntivite bacteriana confirmada ou muito provável. As opções mais usadas são ciprofloxacino, ofloxacino, tobramicina e moxifloxacino. A escolha depende do perfil de resistência local, do agente suspeito e do histórico do paciente. Nunca use sem prescrição: se a causa for viral, não vai adiantar nada e vai contribuir com resistência.

Antialérgicos tópicos

Para conjuntivite alérgica, os colírios de dupla ação (anti-histamínico + estabilizador de mastócito) são os mais indicados. Eles funcionam tanto para o alívio imediato quanto para a prevenção das crises. Precisam de prescrição mas não causam dependência. Dica prática: guardar o frasco na geladeira (parte de baixo da porta, sem congelar) torna a gota fria, o que alivia a coceira ainda mais no momento da instilação.

Corticoide: quando e como

O corticoide ocular (fluorometolona, loteprednol, prednisolona, acetato de medrissona) tem papel importante em conjuntivites graves: surtos alérgicos intensos, EKC com pseudomembranas, VKC descompensada, uveíte associada. Mas tem uma lista de riscos: pode elevar a pressão intraocular (glaucoma corticoidiano), facilitar infecções fúngicas e virais, e causar catarata se usado por tempo prolongado.

A regra básica: corticoide ocular é medicamento de uso com prazo definido e supervisão. Nunca se automedique com corticoide, nem continue o frasco além do prazo prescrito.

Por que não comprar colírio sem prescrição

O risco real de automedicação está no corticoide vendido em farmácias sem receita (isso ainda acontece em algumas regiões). Pacientes que compram por conta própria sem saber se a causa é viral podem transformar uma conjuntivite autolimitada num quadro complicado. O glaucoma corticoidiano acontece quando a pressão intraocular sobe pela ação do corticoide, e pode causar dano permanente ao nervo óptico se não detectado a tempo.

Atenção: automedicação com corticoide ocular é um risco real e documentado. O glaucoma corticoidiano pode ser silencioso até causar dano irreversível. Qualquer colírio prescrito merece uma consulta prévia.

Quanto tempo dura cada tipo de conjuntivite

Saber o prazo esperado ajuda a não entrar em pânico e a reconhecer quando o quadro está saindo do esperado:

  • Viral comum: 7 a 14 dias, com pico entre o 3º e o 5º dia. O olho piora antes de melhorar.
  • EKC (adenovírus agressivo): até 3 semanas, e os infiltrados corneanos podem persistir por meses.
  • Herpes simples ocular: tratamento antiviral por 10-14 dias, mas pode recidivar.
  • Bacteriana: 3 a 5 dias com antibiótico correto. Sem antibiótico, pode durar até 2 semanas.
  • Gonocócica: emergência, melhora com antibiótico sistêmico em 24-48h, mas o risco de dano corneano é real mesmo nesse prazo.
  • Alérgica: dura enquanto houver exposição ao alérgeno. Com controle, os sintomas reduzem em dias.
  • Tóxica: resolve em horas a 2 dias após afastar o agente.
  • Traumática: varia com o tipo e extensão da lesão.

Se o olho piorar depois do 5º dia ou não melhorar após 2 semanas, retorne ao oftalmologista. O diagnóstico pode precisar de revisão.

Conjuntivite em criança vs adulto

A conjuntivite se comporta de formas muito diferentes dependendo da faixa etária. O que é banal num adulto pode ser urgência num recém-nascido.

Recém-nascido: urgência sempre

Qualquer olho vermelho com secreção em recém-nascido (até 28 dias) é urgência. Não existe "esperar pra ver" aqui. A oftalmia neonatal pode ser causada por gonococos ou clamídia transmitidos no momento do parto e, sem tratamento rápido, pode causar cegueira permanente por perfuração da córnea. A profilaxia com colírio de Credé (nitrato de prata) ou antibiótico na sala de parto existe pra prevenir exatamente isso, mas não é infalível.

Colírio de nitrato de prata, aliás, pode por si só causar uma conjuntivite química leve nas primeiras 24-48 horas após o parto, chamada de conjuntivite química do recém-nascido. Essa passa sozinha em 1-2 dias e não precisa de tratamento.

Crianças e epidemia escolar

Em crianças em idade escolar (3-12 anos), a conjuntivite viral por adenovírus é muito comum e causa epidemias em turmas inteiras. Uma criança com conjuntivite viral ativa não deve frequentar a escola enquanto estiver na fase aguda com vermelhidão intensa e lacrimejamento. Em geral, isso dura 7-10 dias. O oftalmologista pode emitir atestado para o período de afastamento.

Além da viral, crianças com atopia (asma, dermatite) têm maior risco de desenvolver conjuntivite alérgica perene e, nos casos mais intensos, a vernal (VKC). Coceira constante, olhos vermelhos que nunca melhoram de vez e o hábito de esfregar os olhos devem ser investigados com oftalmologista especializado.

Adultos e lente de contato

Em adultos, a distribuição dos tipos é mais equilibrada. Um ponto de atenção especial para quem usa lente de contato: usar lentes durante uma conjuntivite, seja qual for o tipo, agrava a inflamação, dificulta o tratamento e aumenta muito o risco de infecção bacteriana grave na córnea. Olho vermelho com lente de contato: retire a lente e procure o oftalmologista no mesmo dia. Úlceras de córnea por Pseudomonas (bactéria que adora lente de contato) progridem muito rapidamente.

Conjuntivite crônica: causas comuns

E quando o olho vermelho não passa? Quando a vermelhidão, a coceira ou a sensação de areia duram semanas ou meses, provavelmente não é uma conjuntivite aguda. É um quadro crônico que costuma ter causa diferente. Conjuntivite crônica é definida como inflamação da conjuntiva com mais de 4 semanas de duração, e o diagnóstico depende de identificar a causa de base.

Causas mais comuns de conjuntivite crônica:

  • Conjuntivite alérgica perene · exposição constante a ácaros, pelos, fungos · coceira diária · alivia parcialmente com antialérgico tópico
  • Conjuntivite vernal (VKC) e atópica (AKC) · formas graves recorrentes · papilas tarsais gigantes · risco de lesão da córnea · podem precisar de ciclosporina ou tacrolimus tópicos
  • Papilar gigante (GPC) · associada a lente de contato, prótese ocular ou sutura · papilas grandes na pálpebra superior · melhora retirando o agente
  • Blefarite crônica e disfunção das glândulas de Meibomius · inflamação da raiz do cílio que irrita a conjuntiva por baixo · vermelhidão e olho seco associados · tratamento com higiene palpebral e compressas mornas
  • Olho seco crônico · pode mimetizar ou coexistir com conjuntivite · sensação de areia constante · piora ao fim do dia e em ambiente seco
  • Conjuntivite tóxica crônica · uso prolongado de colírios com conservantes (benzalcônio), cosméticos ou colírios vasoconstritores · resolve afastando o agente
  • Síndrome de Sjögren e outras doenças autoimunes · olho seco severo associado a boca seca e artrite · exige investigação reumatológica
  • Conjuntivite por molusco contagioso · viral lenta, lesões na pálpebra liberando vírus na lágrima · trata removendo as lesões cutâneas
  • Conjuntivite cicatricial (penfigoide ocular, Stevens-Johnson) · rara mas grave · cicatrizes que aderem pálpebra ao olho (simbléfaro) · exige oftalmologista especializado em superfície ocular

Importante: olho vermelho que persiste por mais de 2 a 3 semanas merece avaliação oftalmológica detalhada. O exame na lâmpada de fenda, colorações vitais com fluoresceína e verde lissamina, e às vezes biópsia da conjuntiva são necessários pra fechar o diagnóstico. Automedicar uma conjuntivite crônica em geral só mascara o quadro.

Diferencial: o olho vermelho que não é conjuntivite

Nem todo olho vermelho é conjuntivite. Há condições que se apresentam com vermelhidão mas são muito mais sérias e exigem avaliação imediata. Reconhecer os sinais que apontam pra outro diagnóstico pode salvar a visão.

Uveíte

A uveíte é a inflamação de dentro do olho, especificamente da úvea (íris, corpo ciliar e coroide). O sinal que a diferencia da conjuntivite é a dor ocular profunda associada à vermelhidão, especialmente quando o olho é pressionado com delicadeza. Fotofobia intensa (o olho fecha diante da luz) é outro sinal. A uveíte pode estar associada a doenças sistêmicas (artrite reumatoide, sarcoidose, doenças inflamatórias intestinais) e exige tratamento anti-inflamatório específico.

Glaucoma agudo

O glaucoma agudo de ângulo fechado é uma das raras emergências oftalmológicas verdadeiras. A pressão intraocular sobe abruptamente (pode ir de 15 mmHg normal pra 50-60 mmHg em horas), causando dor intensa e súbita, vermelhidão, visão turva com halos coloridos ao redor de luzes, náusea e vômito. Pacientes frequentemente vão ao pronto-socorro geral achando que é enxaqueca ou problemas gástricos. Sem tratamento em poucas horas, o nervo óptico pode ser danificado de forma irreversível. Saiba mais sobre glaucoma.

Se o olho vermelho vier com dor intensa e halos coloridos ao redor de luzes, vá ao pronto-socorro agora.

Ceratite e úlcera de córnea

A ceratite é a inflamação da córnea, muitas vezes infecciosa (bacteriana, fúngica, herpética ou por Acanthamoeba). O sinal que chama atenção é a dor ocular que piora com a abertura do olho, fotofobia intensa e, às vezes, uma mancha branca visível na córnea (o infiltrado). Em usuários de lente de contato, qualquer dor com vermelhidão é ceratite até prova em contrário. O exame com fluoresceína revela o dano epitelial. Veja mais sobre colorações vitais para diagnóstico de dano corneano.

Episclerite

A episclerite é a inflamação da episclera, a camada entre a conjuntiva e a esclera. O olho fica vermelho, mas de forma setorial (um setor do branco fica muito mais vermelho do que o resto) e a dor é leve ou ausente. Em geral é autolimitada, mas pode recorrer. Quando se torna dolorosa ou associada a doenças sistêmicas, pode ser esclerite, que é mais grave. Veja sobre episclerite.

Hemorragia subconjuntival

A hemorragia subconjuntival é assustadora de ver mas geralmente benigna. Acontece quando um pequeno vaso da conjuntiva se rompe (esforço, tosse, espirro, trauma leve ou espontaneamente) e o sangue fica preso entre a conjuntiva e a esclera, formando uma mancha vermelha intensa e bem delimitada. Não dói, não afeta a visão e some sozinha em 1 a 3 semanas. Não precisa de tratamento. Exceção: hemorragia subconjuntival após trauma ocular forte exige avaliação urgente pra descartar lesão mais profunda.

Blefarite e olho seco

A blefarite é a inflamação das pálpebras, especialmente da margem onde ficam os cílios. Causa vermelhidão, crostas, sensação de areia e, muitas vezes, conjuntivite associada. O tratamento é higiene palpebral, não antibiótico. O olho seco também causa vermelhidão crônica, ardência e sensação de corpo estranho, mas o diagnóstico depende da avaliação do filme lacrimal. Ambas as condições são muito frequentes e muitas vezes subdiagnosticadas por serem confundidas com "conjuntivite que não melhora".

Como prevenir conjuntivite

  • Lave as mãos com frequência, especialmente após usar o banheiro, tocar em superfícies compartilhadas ou animais.
  • Não leve as mãos ao rosto e aos olhos sem higienização prévia.
  • Não compartilhe toalhas, fronhas, maquiagem ou colírios, nem com família próxima.
  • Lentes de contato: siga as instruções de descarte e higiene do fabricante. Nunca durma com a lente, aumenta o risco de infecção bacteriana grave na córnea.
  • Em ambientes com surto viral, evite contato próximo e higienize superfícies tocadas com frequência. Álcool 70% funciona bem contra adenovírus.
  • Se você é alérgico, identifique e reduza a exposição aos gatilhos: capas antiácaro no colchão, manter o animal fora do quarto, reduzir tapetes e pelúcias.
  • Use óculos de proteção ao trabalhar com produtos químicos, tintas ou em atividades com risco de impacto ocular.
  • Maquiagem: troque rímel e delineador a cada 3 meses, nunca compartilhe e não use em olho inflamado.

Quando procurar oftalmologista

Nem todo olho vermelho precisa de pronto-socorro, mas alguns sinais pedem avaliação no mesmo dia. Procure o oftalmologista imediatamente se houver:

Infográfico com seis sinais de alarme que distinguem conjuntivite comum de quadros graves: olho vermelho com lente de contato, dor intensa, queda súbita da visão, mancha branca na córnea, recém-nascido com olho vermelho e após trauma direto.
Seis sinais que NÃO são conjuntivite comum e exigem oftalmologista no mesmo dia.
  • Dor intensa no olho que não alivia, pode indicar aumento da pressão intraocular ou lesão corneana.
  • Queda ou borramento súbito da visão, sinal de alerta sério, independente da causa.
  • Secreção purulenta abundante em recém-nascido, urgência absoluta.
  • Fotofobia intensa associada a dor, pode ser uveíte ou ceratite.
  • Pontos brancos na córnea visíveis ou sensação de corpo estranho que não passa.
  • Sintomas que pioram depois do 5º dia ou não melhoram em 2 semanas com tratamento.
  • Olho vermelho após trauma de qualquer intensidade, mesmo que pareça leve.
  • Olho vermelho com halos coloridos e dor intensa: ir ao pronto-socorro, pode ser glaucoma agudo.
  • Usuário de lente de contato com olho vermelho: retirar a lente e procurar o médico no mesmo dia.

Conjuntivite viral é autolimitada na maioria dos casos, mas algumas complicações (infiltrados subepiteliais, pseudomembranas) afetam a visão e exigem acompanhamento.

Cuidados durante o tratamento

Algumas medidas simples reduzem o desconforto e evitam contaminação para outras pessoas:

  • Não use lente de contato enquanto o olho estiver inflamado. A lente agrava a irritação e aumenta o risco de infecção corneana.
  • Separe sua toalha e fronha do restante da família. Troque diariamente.
  • Lave as mãos antes e depois de aplicar qualquer colírio.
  • Compressa gelada alivia coceira e inchaço na viral e na alérgica. Compressa quente é pra terçol e blefarite, não pra conjuntivite.
  • Não use chá de camomila no olho: pode contaminar e piorar o quadro. Use soro fisiológico 0,9% com gaze limpa pra higienizar a secreção.
  • Siga o prazo do colírio prescrito, mesmo que o olho melhore antes. Interromper cedo pode causar recidiva.
  • Evite maquiagem até o olho estar completamente curado. Descarte o rímel e o delineador usados durante o período de infecção.

Detalhes técnicos

Para quem quer entender o mecanismo por trás dos sintomas:

Mecanismo viral e resposta imune

O adenovírus entra na célula conjuntival pelo receptor CAR (Coxsackievirus and Adenovirus Receptor), replica no núcleo usando a maquinaria da célula hospedeira e libera novos vírus que infectam células vizinhas. A resposta imune inata (interferon, células NK) e a adaptativa (linfócitos T CD8) são ativadas. O infiltrado linfocítico resulta na vermelhidão intensa e no edema conjuntival. Nos sorogrupos 8, 19 e 37, o vírus cruza a barreira epitelial corneana e alcança o estroma, onde os infiltrados subepiteliais são, na verdade, focos de linfócitos T residentais que persistem muito tempo após a eliminação viral.

Pseudomembranas e infiltrados subepiteliais

As pseudomembranas são redes de fibrina, células inflamatórias e muco que se formam sobre a conjuntiva tarsal em resposta à lesão grave do epitélio conjuntival. Se aderidas firmemente, são chamadas de membranas verdadeiras (e sua remoção sangra). A remoção reduz a inflamação local e previne simbléfaro (aderência da conjuntiva palpebral à bulbar). Os infiltrados subepiteliais corneanos, por sua vez, são agregados de linfócitos T que ficam na camada de Bowman e no estroma anterior. Corticoide suprime esses infiltrados mas pode causar rebote quando suspenso, daí o desmame lento.

Antimicrobianos e resistência

As fluoroquinolonas de 4ª geração (moxifloxacino, gatifloxacino) têm excelente penetração tecidual e cobertura de amplo espectro, incluindo S. aureus resistente a meticilina (MRSA) em algumas cepas. O uso inapropriado em conjuntivites virais ou autolimitadas cria pressão seletiva sobre a flora comensal ocular, favorecendo o surgimento de bactérias com mecanismos de resistência à quinolonas (mutações em gyrA e parC). Além da resistência, a maioria das conjuntivites bacterianas não complicadas é autolimitada em 7-14 dias sem tratamento, o que torna o número necessário pra tratar (NNT) do antibiótico tópico relativamente alto nas formas leves.

Patofisiologia alérgica

A conjuntivite alérgica tipo I (sazonal e perene) é mediada por IgE. Alérgenos (ácaros, pólen, pelo) ligam-se às IgE fixadas na superfície de mastócitos conjuntivais. Essa ligação dispara a degranulação: histamina (coceira imediata, vasodilatação), triptase, prostaglandinas e leucotrienos são liberados. A fase tardia, horas depois, envolve recrutamento de eosinófilos e basófilos, que amplificam e prolongam a inflamação. Nas formas graves (VKC, AKC), há também inflamação mediada por Th2 (IL-4, IL-5, IL-13) com remodelamento tecidual e hiperplasia papilar. Os colírios de dupla ação bloqueiam tanto a ligação histamina-receptor H1 (alívio imediato) quanto estabilizam o mastócito (prevenção da degranulação futura), o que os torna superiores ao anti-histamínico puro.

Perguntas frequentes

Dúvidas comuns sobre este tema

Quanto tempo dura a conjuntivite?

Depende do tipo. A viral costuma durar 7 a 14 dias, com pico entre o 3º e o 5º dia. Cepas mais agressivas de adenovírus (ceratoconjuntivite epidêmica) podem levar até 3 semanas. A bacteriana melhora em 3 a 5 dias com antibiótico correto. A alérgica dura enquanto houver exposição ao alérgeno. A tóxica resolve em horas a dias após afastar o agente irritante.

A conjuntivite é contagiosa? Por quanto tempo?

As formas viral e bacteriana são contagiosas. A viral transmite enquanto houver vermelhidão e lacrimejamento intensos, em geral por 10 a 14 dias. A bacteriana deixa de transmitir cerca de 24 a 48 horas após o início do colírio antibiótico correto. Conjuntivite alérgica, tóxica e traumática não são contagiosas.

Posso trabalhar ou meu filho pode ir à escola com conjuntivite?

Não enquanto estiver na fase aguda da conjuntivite viral ou bacteriana. O afastamento evita que a doença se espalhe. Em escolas e ambientes fechados, um único caso pode virar epidemia em poucos dias. O oftalmologista emite atestado pelo período necessário.

Como diferenciar conjuntivite viral de bacteriana sem ir ao médico?

Os principais sinais que apontam pra bacteriana são a secreção purulenta amarela ou verde, espessa, que cola os cílios pela manhã. Na viral, a secreção é aquosa e clara, e costuma começar em um olho que passa pro outro em 2 a 4 dias. Mas o diagnóstico definitivo depende do exame com o oftalmologista, porque o tratamento errado atrapalha o resultado.

Olho vermelho com lente de contato é urgência?

Sim, merece avaliação no mesmo dia. Usuários de lente de contato têm risco aumentado de infecções corneanas por bactérias como Pseudomonas, que progridem rápido e podem deixar cicatriz. Retire a lente imediatamente e procure o oftalmologista. Não use a lente até o médico liberar.

Compressa quente ou fria? Posso usar chá de camomila?

Compressa fria é o padrão pra conjuntivite viral e alérgica: alivia coceira, vermelhidão e inchaço. Compressa quente só é indicada em terçol e blefarite, não em conjuntivite. Evite chá de camomila ou outras receitas caseiras direto no olho, porque podem contaminar e piorar o quadro. Use soro fisiológico 0,9% com gaze limpa pra higienizar.

Posso fazer maquiagem com conjuntivite?

Não. Durante uma conjuntivite, a maquiagem nos olhos agrava a irritação, contamina o frasco e aumenta o risco de reinfecção. Quando o olho curar, descarte o rímel e o delineador usados no período de infecção e comece com produtos novos.

Meu filho pegou conjuntivite na escola, e agora?

Afaste a criança da escola enquanto o olho estiver na fase aguda (vermelhidão intensa, lacrimejamento). Leve ao pediatra ou oftalmologista pra confirmar o tipo e, se necessário, obter atestado. Em casa, separe toalha e fronha, reforce a higiene das mãos e evite compartilhar objetos com o restante da família. Fique atento se outros membros da casa começarem a apresentar sintomas nos dias seguintes.

Quando devo procurar atendimento de urgência?

Procure imediatamente se houver: dor intensa no olho, queda ou borramento súbito da visão, secreção purulenta abundante em recém-nascido, fotofobia intensa associada a dor, halos coloridos ao redor de luzes (possível glaucoma agudo), pontos brancos na córnea, ou sintomas que pioram após o 5º dia. Qualquer olho vermelho após trauma também exige avaliação no mesmo dia.

Este artigo substitui uma consulta com oftalmologista?

Não. O conteúdo é educativo e não substitui a avaliação presencial. O diagnóstico e o tratamento dependem do exame clínico individualizado.

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