"Alergia ocular" é um guarda-chuva pra cinco condições distintas. Cada uma tem causa, perfil de paciente e tratamento diferente. Identificar o tipo é o primeiro passo pra tratar certo.
Quando dá só em certas épocas do ano
Esse é o perfil da conjuntivite alérgica sazonal (a mais comum). Os sintomas aparecem e desaparecem seguindo o calendário da polinização.
- Em São Paulo: braquiária e gramíneas pastosas concentram o pico entre outubro e março (estação chuvosa). Cipreste polina entre junho e agosto.
- Os sintomas: coceira intensa (esse é o sinal que diferencia de conjuntivite viral), lacrimejamento aquoso, quemose leve e vermelhidão bilateral.
- Costuma vir junto com espirros e coriza. Paciente coça olho e espirra ao mesmo tempo.
- Melhora sozinha quando a estação termina, mas o tratamento reduz muito o sofrimento durante o pico.
Como diferenciar de conjuntivite viral: na viral, a coceira é menos intensa, o começo é assimétrico e costuma ter linfonodo atrás da orelha. Na bacteriana, secreção purulenta e pouca coceira.
Quando o olho coça o ano todo
Aqui os gatilhos são alérgenos domésticos, presentes 365 dias por ano. O quadro é a conjuntivite alérgica perene: mais leve que o pico sazonal, mas crônico.
- Ácaros domésticos (Dermatophagoides pteronyssinus, D. farinae, Blomia tropicalis): os mais prevalentes no Brasil. Proliferam em colchões, tapetes e estofados com umidade acima de 50%.
- Epitélio de gato (alérgeno Fel d 1): muito leve, fica suspenso no ar por horas. Paciente sensibilizado reage mesmo visitando a casa de quem tem gato.
- Epitélio de cão (Can f 1, Can f 2): menos potente que o de gato, mas muito prevalente dado o número de cães no Brasil.
- Fungos (Alternaria, Cladosporium, Aspergillus): crescem em banheiros mal ventilados e ar-condicionado sem manutenção. Pioram em dias úmidos.
- Baratas e mofo doméstico: contribuem para a carga alérgica interna em SP.
O problema da alergia perene é a cronicidade: o paciente se acostuma com o olho "meio inchado" e "meio coçando" e subestima a gravidade. Quando o gatilho perene é identificado, a evitação ambiental e, em alguns casos, a imunoterapia mudam o quadro.
Quando a criança não para de esfregar
Esse é o perfil da ceratoconjuntivite vernal (VKC). O nome "vernal" (primaveril) reflete o pico sazonal, mas muitos pacientes têm sintomas o ano todo.
Quem é afetado: meninos entre 5 e 25 anos, com forte componente atópico. A razão meninos:meninas é aproximadamente 3:1 antes da puberdade e equaliza depois. Mais comum em regiões quentes: Mediterrâneo, Oriente Médio, América Latina.
O que diferencia a VKC das outras formas:
- Papilas tarsais gigantes na face interna da pálpebra superior: ao everter a pálpebra, o médico vê um aspecto de "calçamento de pedras" (cobblestone). Cada papila mede mais de 1 mm.
- Pontos de Trantas no limbo: acúmulos esbranquiçados na borda da córnea, visíveis na lâmpada de fenda. São patognomônicos de VKC ativa.
- Secreção mucosa filamentar: diferente da secreção aquosa da alergia sazonal.
- Fotofobia intensa: sinal de que a córnea está comprometida. Pede avaliação imediata.
- Úlcera em escudo: úlcera corneana oval superior, causada pelo trauma mecânico das papilas sobre a córnea. É complicação grave que precisa de tratamento imediato.
A VKC tende a se resolver na vida adulta (Di Zazzo et al, Curr Opin Allergy Clin Immunol 2020), mas isso não significa esperar passivamente. O tratamento durante a infância evita cicatrizes corneanas e ceratocone por esfregar os olhos.3
Quando adulto com eczema tem olho inflamado crônico
A ceratoconjuntivite atópica (AKC) é a forma adulta grave, e a que tem maior potencial de dano ocular permanente.
Perfil: adultos com dermatite atópica (eczema) desde a infância, frequentemente com asma e rinite associadas. O quadro ocular é perene, com agudizações sazonais.
O que aparece no exame:
- Pele periocular: eczema e espessamento da pele ao redor dos olhos, perda de cílios (madarose), prega infraorbitária dupla (sinal de Dennie-Morgan), rarefação das sobrancelhas na lateral (sinal de Hertoghe).
- Conjuntiva: inflamação crônica com fibrose progressiva. Em casos avançados, aderência entre as conjuntivas (simbléfaro).
- Córnea: úlceras, neovascularização, opacidade nos casos graves.
- Ceratocone: fortemente associado. Dois mecanismos: predisposição atópica intrínseca mais o hábito crônico de esfregar os olhos. McMonnies (Cornea 2009) documentou que o esfregar repetido causa microtraumas que remodelam o colágeno corneano.
- Catarata precoce: associada ao uso de corticoides tópicos em ciclos repetidos.
Diferente da VKC, a AKC não tem remissão espontânea previsível. Merece monitoramento oftalmológico regular e tratamento continuado.
Quando a lente de contato virou o problema
A conjuntivite papilar gigante (GPC) tem mecanismo diferente das outras: não é primariamente mediada por IgE, mas sim uma reação mista (mecânica e imunológica) ao contato crônico com material estranho.
- Causas: lentes de contato gelatinosas (especialmente mensais com depósito), próteses oculares, suturas de náilon expostas.
- Sintomas: coceira após horas de uso, sensação de corpo estranho, intolerância progressiva às lentes, visão flutuante (lente que "sobe").
- No exame: papilas na conjuntiva interna da pálpebra superior (mesma localização da VKC, mas por causa diferente).
- Tratamento: suspensão temporária das lentes, antialérgico tópico, eventualmente ciclosporina. Reintrodução com lentes de hidrogel siliconado de descarte diário minimiza recidivas.