Blefarite refratária e ácaros Demodex: o tratamento que falta
Quando a blefarite não melhora com tratamento convencional, a causa pode ser o ácaro Demodex. Entenda como identificar os colarettes cilíndricos e quais tratamentos avançados (Luz Pulsada, iLUX, Lipiflow) funcionam nos casos refratários.
Doenças dos Olhos · Publicado em 26 de agosto de 2023 · Atualizado em 24 de abril de 2026
A blefarite é uma causa de olhos vermelhos, caracterizada pela vermelhidão da margem das pálpebras.
Este problema é caracterizado pelo excesso de oleosidade nas glândulas lipídicas (gordura) das pálpebras — essas glândulas são chamadas de glândulas de meibomius. Portanto, o problema pode também ser chamado de Meibomite.
Principais sintomas da blefarite: olho vermelho, inchaço com vermelhidão das pálpebras e secreção purulenta.
A blefarite pode atingir pessoas de todas as idades, inclusive bebês, crianças, adultos e idosos. Este bebê tem blefarite da pálpebra inferior do olho direito — nota-se inchaço, vermelhidão e perda das linhas normais da pálpebra. (Autor: Sage Ross, Wikimedia Commons)
Quais as causas da blefarite?
Idade (mais comum na adolescência e vida adulta); fatores hormonais (testosterona e ciclos menstruais nas mulheres); fatores ambientais e comportamentais (poluição, uso de maquiagem, pó, poeira, exposição a partículas finas, hábito de levar as mãos aos olhos, coceira); maior tendência à oleosidade da pele e à descamação; associação com atopia ou alergia de pele, dermatite seborreica e psoríase; e os ácaros da pele que vivem na margem dos cílios e nas glândulas de meibomius — Demodex folliculorum e Demodex brevis.
Caso de blefarite seborreica: nota-se (seta) um colarette — pequena caspa que se forma nos cílios, resultado da descamação da pele.
Como tratar a blefarite?
Depende da severidade do problema. Se for leve ou moderada, o melhor tratamento são compressas mornas e o início de uma rotina de higienização dos cílios.
As compressas mornas são muito interessantes e podem ser feitas antes da higiene dos cílios. Elas ajudam a abrir os poros das glândulas e a tornar a secreção interna mais flúida, permitindo sua expressão/drenagem pelos ductos. Veja na foto abaixo como fica a obstrução dos pontos de drenagem na blefarite posterior.
Orifícios entupidos das glândulas de meibômio ao lado dos cílios (blefarite posterior); nota-se ainda secreção purulenta. A blefarite pode ter componente infeccioso — geralmente estafilocócico ou similar.
A limpeza dos cílios pode ser feita com gel específico — como o Blephagel, o Systane Lid Wipes — ou com Shampoo Infantil Neutro (ex.: Johnson Baby Amarelo).
No caso do shampoo neutro, crie uma espuma pingando uma pequena gota de shampoo e duas ou três gotas de água; aplique a espuma com os olhos fechados na margem da pálpebra em movimentos circulares e enxágue completamente.
O uso de soluções próprias para limpeza (Blephagel ou Systane Lid Wipes) permite a higiene com mais conforto e menos risco de irritação devido ao caráter neutro da solução. As compressas incluídas nos produtos ajudam a limpar os poros das glândulas e a remover pequenas sujeiras nos cílios (colarettes — visíveis ao exame de lâmpada de fenda).
Nos casos mais severos, pode ser necessário o uso de antibiótico tópico e corticoesteroide (colírio ou pomada oftalmológica) — chamada de terapia combinada. Este tratamento deve ser sempre indicado pelo oftalmologista, porque o uso desnecessário de antibióticos pode piorar o problema; além disso, corticoides podem levar a complicações como glaucoma cortisônico e catarata. Após cessar os corticoides, muitos pacientes apresentam efeito rebote, com piora dos sintomas, pois não houve tratamento da causa-base (entupimento das glândulas).
Blefarite difusa com inchaço intenso de toda a pálpebra superior do olho direito.
É importante minimizar o uso de corticoesteroides e favorecer a manutenção dos casos com a limpeza de cílios.
O uso de lubrificantes sem conservantes é interessante, pois pode aliviar o olho seco associado e ajudar o paciente a coçar menos os olhos.
Coçar os olhos pode ser muito prejudicial e causar piora do problema. Ao ferir as pálpebras com as unhas, há maior proliferação bacteriana nas microlesões, agravando a blefarite.
Para pacientes com muita coceira ou alergia associada, pode ser interessante o uso de colírios antialérgicos — como Octifen, Patanol S, Lastacaft e similares.
Cada caso de blefarite deve ser individualmente avaliado quanto à existência de: olho seco, alergia associada ou rinite alérgica, atopia, uso de maquiagem e o hábito de coçar os olhos.
Equipe médica
Nossa equipe especializada em córnea e superfície ocular
Blefarite costuma caminhar junto com olho seco, alergia ocular e ceratocone. Nossos especialistas em córnea acompanham o caso do início ao fim — do tratamento clínico à adaptação de lentes especiais quando necessário.
O uso de vitaminas para auxiliar a produção de uma secreção mais saudável das glândulas pode ser benéfico. Existem formulações à base de Ômega 3 e Vitamina D para essa condição, como o L-CAPS D+ e o Preservit, disponíveis na maioria das farmácias. O ômega 3 tem ação anti-inflamatória e ajuda a tornar a secreção lipídica menos espessa.
Para casos recidivantes e/ou mais graves, pode ser indicado o tratamento com antibiótico por via oral (como azitromicina ou doxiciclina). Para esses casos existem tratamentos excelentes como expressão das glândulas de meibomius no consultório, Luz Intensa Pulsada (IPL) e Lipiflow.
Esses casos recidivantes devem ser sempre avaliados quanto à presença de Blefarite por Demodex sp. — ácaro que pode agravar e/ou causar blefarite resistente ao tratamento e calázios recidivantes.
O iLUX é um dos tratamentos que usa Luz Pulsada para tratamento da blefarite / meibomite.
A blefarite pode causar outros malefícios?
É comum, nos casos de blefarite crônica, o aparecimento de terçóis (hordéolos) e calázios, que podem trazer desconforto e alteração estética palpebral. Esses problemas ocorrem mais facilmente quando há entupimento das glândulas de meibomius, pois favorece a migração das bactérias para os ductos quando não há correto escoamento da secreção meibomiana.
À esquerda, terçol interno; à direita, terçol externo. O nome técnico para terçol é hordéolo.
Ainda, o olho seco evaporativo ocorre muitas vezes nesses casos, pois a qualidade da lágrima fica prejudicada pela ausência da secreção lipídica — que deveria funcionar como uma 'tampa' que ajuda a evitar a evaporação da lágrima.
O olho vermelho crônico pode ser causa de constrangimento social em eventos, no mundo corporativo e em diversos locais. Alguns pacientes ignoram os sintomas inicialmente, mas procuram ajuda quando notam que o olho vermelho está sendo percebido por outros.
A blefarite pode cronicamente causar olho vermelho, coceira nos olhos, perda de cílios permanente e aparecimento de cílios mal formados (distiquíase).
O uso de maquiagem pode piorar estes casos?
O uso de rímel ou de lápis pode favorecer o entupimento dos poros das glândulas e piorar a blefarite. Pode haver também alergia associada que piora com o uso destes produtos.
Algumas pessoas precisam usar maquiagem devido às suas funções de trabalho. Nesses casos, é importante a demaquilagem adequada com produtos como Blephagel ou Systane Lid Wipes antes de deitar.
Use sempre maquiagem nova e evite produtos abertos há mais de 2–3 meses, pois pode haver contaminação. Outro hábito a ser evitado é o compartilhamento de maquiagens entre diferentes usuários.
Os ácaros Demodex e seu papel na blefarite crônica refratária
Diversos pacientes apresentam um quadro de blefarite causado e/ou agravado pela presença de uma população exacerbada dos ácaros da pele (Demodex folliculorum e Demodex brevis).
Sintomas da blefarite por Demodex
Olho vermelho
Pálpebra vermelha e irritada
Obstrução das glândulas de meibomius
Blefarite resistente ao tratamento
Sinal patognomônico: colarettes cilíndricos na base dos cílios.
Deve-se suspeitar desta condição nos pacientes que têm blefarite resistente ao tratamento, geralmente já avaliados por diversos oftalmologistas sem sucesso, tendo tentado múltiplos colírios, lubrificantes e pomadas sem alívio dos sintomas.
A) Colarettes cilíndricos por Demodex. B) Obstrução de glândulas de meibomius por Demodex. C) Blefarite comum sem Demodex. D) Ácaros na microscopia de luz.
Estes ácaros são diminutos, vivem dentro das glândulas e nas margens, são invisíveis ao olho nu e se alimentam da secreção sebácea das glândulas de Meibomius e da secreção dos cílios.
Os diminutos ácaros Demodex se alimentam da secreção das glândulas da margem das pálpebras.
Na maioria dos pacientes são comensais da pele e não causam problemas. Porém, em certos pacientes, há tendência à proliferação exacerbada, causando quadros de blefarite refratária ao tratamento convencional com antibióticos, pomadas e higiene de cílios com produtos habituais.
São diagnosticados ao exame de lâmpada de fenda quando se observam colarettes específicos — cilíndricos e mais depositados nas bases dos cílios; tipicamente há obstrução das glândulas de meibomius associada e dificuldade de sua expressão.
Colarettes cilíndricos na base dos cílios, típicos e patognomônicos de blefarite por Demodex sp.
Esses colarettes específicos são patognomônicos (100% de certeza) da presença de Demodex sp., não havendo necessidade de exame dos cílios epilados à microscopia de luz para identificação. Existe habitualmente coinfestação com bactérias como Staphylococcus aureus e/ou epidermidis.
Tratamento da blefarite por Demodex
A limpeza dos cílios com produtos à base de Tea Tree Oil (óleo de melaleuca) é muito benéfica. O óleo tem propriedades antibacterianas, antifúngicas e — mais importante — atividade acaricida contra o Demodex sp. (folliculorum e brevis).
Comercialmente disponível no Brasil temos o Blefos — espuma para higiene dos cílios com óleo de melaleuca. Alguns oftalmologistas ainda preferem a prescrição de produtos manipulados com o óleo de melaleuca.
Alguns pacientes com dificuldade de drenagem das glândulas de meibomius apresentam benefícios importantes ao serem tratados com expressão das glândulas no consultório e/ou com Lipiflow ou Luz Pulsada (IPL).
Nos Estados Unidos está disponível um colírio específico indicado para Blefarite por Demodex sp. chamado Xdemvy (lotilaner 0,25%), que tem propriedades anti-ácaro excelentes — ainda não está comercialmente disponível no Brasil e só pode ser comprado no exterior com receita médica.
Ação acaricida (anti-ácaro) do colírio com lotilaner disponível nos EUA sob a marca Xdemvy.
A blefarite costuma ser uma condição crônica e intermitente. Não existe 'cura' definitiva para a maioria dos casos, mas o problema é muito bem controlado com rotina de higiene dos cílios, compressas mornas, controle de fatores agravantes (alergia, coceira, maquiagem inadequada) e, quando indicado, tratamentos especializados como expressão das glândulas, Luz Intensa Pulsada (IPL), Lipiflow e colírios específicos.
Como sei se a minha blefarite é por Demodex?
O achado patognomônico é a presença de colarettes cilíndricos na base dos cílios, visíveis ao exame de lâmpada de fenda no consultório oftalmológico. Suspeita-se principalmente em pacientes com blefarite resistente ao tratamento convencional com antibióticos, pomadas e limpeza de cílios com produtos habituais.
Posso usar colírio de corticoide por conta própria?
Não. O uso prolongado ou sem orientação de colírios com corticoide pode causar glaucoma cortisônico, catarata e piora rebote dos sintomas após a suspensão. O tratamento deve ser sempre orientado por oftalmologista e combinado com medidas que atuem na causa-base (higiene dos cílios, compressas mornas, ômega 3).
Maquiagem pode piorar a blefarite?
Sim. Rímel, lápis (principalmente na margem interna da pálpebra) e demaquilagem inadequada favorecem o entupimento das glândulas e podem gerar alergia. Use produtos novos, evite compartilhar maquiagens e faça demaquilagem cuidadosa com produtos específicos antes de dormir.
Quando devo procurar o oftalmologista?
Em casos de olho vermelho crônico que não melhora, hordéolos (terçóis) de repetição, calázios recorrentes, coceira persistente, secreção amarelada pela manhã ou sensação de olho seco que não responde a lubrificantes. Na Ortolan Oftalmologia, a equipe especializada em superfície ocular avalia a causa e monta um plano de tratamento individualizado.
Doutor em Oftalmologia pela USP, especialista em Cirurgia Refrativa, Catarata, Córnea, Ceratocone, Superfície Ocular (olho seco e disfunção das glândulas de meibômio) e Lentes de Contato. Fundador da Ortolan Oftalmologia.
O glaucoma é um grupo complexo de doenças que lesiona progressivamente o nervo óptico — a estrutura que leva as imagens captadas pelo olho até o cérebro. É o maior causador de cegueira irreversível no mundo e, na forma mais comum, evolui sem dor, sem vermelhidão e sem sintomas perceptíveis nos primeiros anos — por isso é chamado de 'ladrão silencioso da visão'. O dano já feito é permanente, mas a perda visual pode ser evitada: diagnóstico precoce e tratamento contínuo permitem estabilizar a doença e preservar a visão útil por décadas.
A catarata é uma condição ocular muito comum, caracterizada pela opacificação do cristalino — a lente natural do nosso olho. Quando essa lente perde a sua transparência, a visão torna-se embaçada, como se estivéssemos olhando através de um vidro sujo ou enevoado. Embora o diagnóstico possa gerar preocupação, a catarata é uma condição altamente tratável.
A blefarite é a inflamação crônica da margem das pálpebras — uma das causas mais frequentes de olho vermelho, coceira, ardor e visão flutuante na população adulta. Em grande parte dos casos, está ligada a um excesso de oleosidade ou disfunção das glândulas de meibômio ([DGM](#tipos-de-blefarite-anterior-posterior-e-mista)), por isso também é chamada de meibomite. Embora seja uma doença crônica, é muito bem controlada quando o tratamento é direcionado à causa: rotina de higiene palpebral, compressas mornas, escolha do colírio certo para o seu tipo de olho seco, manejo dos fatores agravantes (alergia, Demodex, rosácea ocular, maquiagem) e, nos casos refratários, terapias de consultório como Luz Pulsada com E-EYE IRPL e Lipiflow. Esta página é um guia completo para pacientes e familiares — passa pelos tipos de blefarite, sinais ao exame, diagnóstico diferencial do olho vermelho crônico, mecanismos por trás do olho seco evaporativo associado, opções de tratamento e casos clínicos reais atendidos na clínica.
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